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15.10.13

Revisitando João Cabral

É impressionante quando algum aluno, limitado para certas tarefas, consegue surpreender em outras, a principio bem mais complexas.

Você pede à aluna para responder uma questão simples sobre Morte e visa severina, e ela me entrega um poema baseado na saga do retirante, que, a despeito da falta de refinamento (não há métrica, evidente), é imaginativo (é curiosa a mudança de foco narrativo na enigmática última estrofe, por exemplo), tem força intuitiva, além de ser uma fofura. Confiram.

Severino da Maria
Em busca de trabalhar
Com uma viagem árdua
Dias e noites a andar
Buscando vida famosa
Sonhando na terra luxar

Enfrentou terra esturricada
Defunto a enterrar
Passando por toda a Caatinga
Nada encontrou para se alimentar
Durante toda a viagem
O que fazia era resmungar

Chegando à cidade grande
Só decepções encontrei
Descobri que aqui na terra
Cada um vale o que tem
Se alguém falar na morte
Eu com a minha sorte
Vivo morto me encontrei

3.10.13

E com vocês... os já tradicionais microcontos produzidos por meu alunos!



“Se as águas do rio falassem, elas teriam muita história pra contar.”

Diane Duarte

“Da janela vi algo estranho. Parecia folhas se abraçando.”
Benilde Souza

“O mar com tanto sal e nós sem tempero.”
Fabiola Ferreira

“Tudo se fez claro para ela na hora em que apagaram as luzes.”
Júlio Muniz

“A vida deveria ser como uma dança: só alegria.”
Suerda Raissa

“Estou em um relacionamento à distância. É que vivemos em épocas diferentes.”
Mariléssia

"Como sou mudo, eu canto para a vida, pois só ela pode me ouvir."
Thiago

"Correu atrás da felicidade e acabou encontrando a realidade."
Claudicélia


Confira mais aqui.



10.12.12

Saiu uma nova fornada de microcontos dos meus alunos:



“Sempre correu demais, o que adiantou seu funeral.”

“Viveu, sorriu, se atirou do 5º andar. Era livre.”

“Quando o dia ainda não é dia, o galo fica a esperar.”

“Acordei tarde. O Sol estava se pondo. Tenho uma vida inteira pela frente.”

“A sogra era tão teimosa que morreu depois da esperança.”

“Todos a veem sorrindo, mas não sabem o que ela sente.”

“Aprendi a ter paciência por chegar rápido demais onde jamais quis ir.”



E este, que tá mais prum poema concreto:






Mais informações sobre essa atividade didática aqui.
E este



25.5.12



“Naquele dia tentamos mudar o mundo, mas ele não quis acordo.”



“Mil voltas dadas na cama e o sono sem aparecer.”



“Ele era feio, ela era feia, mas juntos formavam um belo casal.”



“Se ele não tivesse acreditado tanto, não teria quebrado a cara.”



“Brincando com a arma do pai, o irmãozinho, sem saber, ao disparar contra o outro, matou com uma única bala todos os sonhos de uma família feliz.”



“Tudo seria diferente se ele não estivesse lá.”



“Aquele policial racista acabou morto por uma arma branca.”



“Procura-se uma pessoa sem nome, sem documento e que ainda não nasceu. Quem vir, avise.”



“Olhei. Admirei. Pensei. Vi um céu tão lindo e Azul, que esconde tanta tristeza. E que a ameaça a luz.”



“Deixava suas contas atrasarem mesmo com o relógio adiantado em cinco minutos.”



“Seus risos eram escondidos. Dores insanas.”



“Eu via a cena, mas não sabia se estava participando.”



A qualidade dos microcontos acima - em uns mais, em outros menos - é evidente. Observe também a variedade. Tem politicamente correto, tragédia, exercícios de síntese, lição de moral, lirismo e até fantástico.

O que poderá ser surpresa é que essas produções são de alunos meus de EJA (Educação de Jovens e Adultos), de uma escola estadual da periferia. Perfil: entre 18 anos e a terceira idade, tiveram de interromper os estudos e agora correm atrás do prejuízo ou, mesmo, só entraram numa sala de aula já adultos.

São estudantes que têm algumas dificuldades, óbvio, e por isso alguns apelidam o EJA de “Eles Jamais Aprenderão”. Mas o que esses microcontos me ensinaram é que, com um empurrãozinho de nada, a literatura pode brotar em qualquer lugar.

18.8.11

Dei o sangue

Todo mundo é meio Poliana quando se fala em doar sangue, até porque é uma coisa importante e tem que incentivar mesmo, e não assustar, mas como eu sou do contra...

Não vou fazer campanha contra, óbvio, só falar um pouco da parte chata, que não é nada muito grave mas, como é tabu, é bom falar até mesmo porque vai que alguém "da área" cai de para-quedas aqui e o que eu vou dizer possa melhorar o atendimento ao doador e, consequentemente, estimular doações.

O problema mais óbvio é o tratamento durante a entrevista inicial, com um médico, que eles chamam de triagem. Além de te picar com uma agulhinha pra saber se você é sangue bom e de te pesar, rolam altas perguntas constrangedoras que são feitas mecanicamente, sem nenhum tato, o que certamente não é fácil para timídos e doadores iniciantes. Em todas as vezes que eu doei/tentei doar os médicos demonstraram, no mínimo, impaciência.

Outra coisa que observo são enfermeiras manuseando as agulhas e outros instrumentos, fazendo tudo enfim, sem luvas. Cadê a preocupação com infecção hospitalar? Eu pelo menos fico inseguro, e olhe que tô longe de ser hipocondríaco (noiado talvez).

Por falar em mim, hoje pela primeira vez fiz doação por aférese, que separa só um componente do sangue (no meu caso, plaquetas) e o resto é devolvido pro seu corpo. Por isso tu leva duas picadas, uma em cada braço, e o processo dura cerca de oito vezes mais que uma doação comum. Vocês não imaginam como é cansativo ficar mais de uma hora apertando uma bolinha de borracha pra bombear o sangue. Além disso, cheguei a ficar levemente tonto. Quem diz que doar (especialmente por aférese) é 100% tranquilo está mentindo. Por uma boa causa, mas tá.

Mas além de fazer uma boa ação e aquela coisa toda que vocês já sabem, doar sangue tem a vantagem , por exemplo, de você descobrir se tem Aids. :)

Quem quiser conhecer a história do Felipe, que me motivou a essa doação, e o Doe Sangue PB, taqui.

16.1.10

As pessoas seriam ainda mais bitoladas se não tivesse sido inventado o bloqueio a MSN, Orkut e afins no trabalho. Algum sociólogo visionário poderia fazer um estudo sério dos efeitos desse bloqueio para a Intelligentsia nacional (quiçá mundial).

No antediluviano 2003, quando estagiário do Sebrae, a falta do que fazer me levou a apelar pra leitura de jornais e foi assim que descobri os textos de Braulio Tavares no Jornal da Paraíba. Braulio publica essas colunas em seu blog, o qual ainda vai ser tombado como patrimônio cultural da humanidade.

Agora mais uma vez me vejo impedido de usar MSN, Orkut e afins e a saída é uma ronda pelos portais, como o R7, criado pela Record/Universal pra ser concorrente-gêmeo do G1. Ali descobri André Forastieri, que, soube depois, já foi da Set, editou a Bizz e atualmente aposta numa revista (de cinema, oh!) chamada Movie.

O primeiro post do cara que li comentava (e elogiava) Retalhos. Forastieri me convenceu não só a seguir lendo-o como a comprar a Graphic Novel - e não me arrependi, apesar de não ser (oficialmente) adolescente.

Em dezembro Papai Noel me trouxe, junto com a Piauí, um texto muito engraçado de André Czernobai, mais conhecido como Cardoso, uma minicelebridade da rede. Adivinha? Aproveitei as horas de ócio aqui no trampo pra fuçar os textos desse jornalista gaúcho até no nome (seu sobrenome se pronuncia "tchêrnobái").

E nessa eu cheguei até Gonzojornalismo: o filho bastardo do New Journalism , segundo seu autor a primeira monografia do país sobre o estilo criado por Hunter Thompson*. O texto é surpreendentemente leve, o que me lembrou algo que minha amiga Elisa falou sobre os trabalhos acadêmicos da Antropologia (a área dela), que, ao contrário da fama, seriam leituras agradáveis.

E é bom ler o trabalho do Capsdoso, principalmente pra quem se interesse por jornalismo e literatura.

Duvidam? Então talvez este trecho abra o apetite:

"A justificativa mais plausível para o uso de drogas no Gonzo Journalism nos remete ao legado deixado por Hunter Thompson, que abusava abertamente de álcool e drogas em grande quantidade e variedade. Logo nas primeiras páginas de Fear and Loathing in Las Vegas, ele descreve todo o material de trabalho que levava no porta-malas do carro:

Nós tínhamos duas bolsas de fumo, setenta e cinco botões de mescalina, cinco cartelas de ácido extremamente potente, um saleiro cheio até a metade de cocaína e toda uma galáxia de multi-coloridos estimulantes, tranquilizantes, gritantes, hilariantes... e também um quarto de tequila, um quarto de rum, uma caixa de Budweiser, cerca de um litro de éter e duas dúzias de nitrito de amila (1971, p.4)"

• Thompson escreveu Fear and Loathing in Las Vegas, que virou filme com Johnny Depp. O Gonzojornalismo é uma faceta do jornalismo literário em que o repórter/escritor se coloca como protagonista e não só como observador/registrador dos eventos. É uma radicalização do Novo Jornalismo. "Maiores informações" na Wikipédia ou comigo.