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15.2.12

Assim como os matemáticos são, entre os acadêmicos, os tipos mais interessantes, os enxadristas constituem o grupo mais excêntrico entre os desportistas. A paulista Katherine tem 12 anos e é autora de um alfabeto. Nas horas vagas trucida adversários com seus bispos de âmbar. Famoso por seus truques, o russo Vassily Tamchuk achou por bem aprender turco. O andaluz Vallejo alterna 24 horas de sono com 96 de vigília. O norueguês Carlsen não come pizza com queijo.

Quem joga xadrez em altíssimo nível costuma ser competitivo ao extremo. Diz-se que estão sempre a andar sobre uma corda bamba sobre o precipício da loucura. O letão Aaron Nimzowitsch, ao antever uma derrota, subiu na mesa e gritou: "Como posso perder para um idiota como este?"

5.7.11

A Revista Piauí do mês passado traz uma matéria sobre o choque do boeing da Gol com o jato da Embraer, em 2006, que matou toda a tripulação e passageiros do primeiro. A reportagem é uma edição de trechos do livro "Perda Total", de Ivan Sant'anna, que a Objetiva lança este mês. O autor ouviu as caixas pretas, consultou relatórios e outros documentos, leu e ouviu tudo o que foi divulgado sobre o acidente, sem falar que Sant'anna é piloto amador e um pesquisador de longa quilometragem do assunto, com outra obra dedicada a desastres aéreos, "Caixa Preta". Isso tudo pra dizer que a riqueza de informações do texto impressiona. E instiga.

O que mais chama atenção é a macabra coincidência de mancadas, que vai desembocar numa co-co-co-corresponsabilidade pelo acidente. Se só um lado tivesse errado, a tecnologia teria evitado a tragédia, mas a culpa é compartilhada, na terra e no ar - os mais "inocentes" foram o piloto e copiloto da Gol, que no momento da batida olhavam fotos em uma câmera digital, mas eles estavam em "voo de cruzeiro", o avião não estava subindo nem descendo, numa altitude constante e, portanto, não havia com o que se preocupar; era tocar o piloto automático, já que naquela altitude seria impossível uma aeronave voar em sentido contrário (também no céu há mão e contra-mão) e, se por acaso isso viesse a acontecer, o transponder avisaria a tempo de desviar...

A dupla que comandava o legacy tratava de levar o jato recém-adquirido pela empresa americana de táxi aéreo ExcelAire, de São José dos Campos, sede da Embraer, para a Flórida, com escala em Manaus. A caixa-preta revelou que ambos passaram o tempo todo brigando com o notebook para entender como o sistema do jato funcionava. Além disso, as tentativas de comunicação com o controlador de voo do Cindacta 1, em Brasília, foram frustradas pela deficiência deste no idioma daqueles, entre outras coisas. "O controlador Jomarcelo dos Santos foi absolvido de todas as acusações pelo juiz Murilo Mendes, sob a alegação de que, 'pelas notórias deficiências' da sua formação, 'só se pode agradecer por ele não ter errado com muito mais frequência'", relata Sant'anna.

Mas antes, ainda no chão, o controlador de São José dos Campos informou aos pilotos americanos que eles deviam voar no nível 370 (3700 pés) até Manaus. Porém o plano de voo estabelecia essa altitude tão somente até Brasília. Ali, deveriam subir para 380. Inexperientes não só com o modelo do jato mas também em relação ao espaço aéreo brasileiro, Lepore e Paladino ignoravam que, indo da capital federal para o Norte, os aviões só podem voar em níveis pares, enquanto que, do Norte para o Sul, como era o caso do boeing, que vinha de Manaus, tomam os ímpares.

Portanto, o Gol estava certo, mas os americanos - e o controlador de São José -, não. Mas, ainda assim, se eles tivessem se preocupado em ler o plano de voo, localizado no escaninho da cabine, bem à frente de suas barrigas, poderiam ter mudado o rumo... Mas não tiveram "airmanship", que significa, (bem) basicamente, prudência. Sem querer, ainda desligaram o transponder e por quase uma hora não se deram conta que ele permaneceu off, o que tornou o jato invisível para o Cindacta 1 e o Gol.

O mais incrível é que a aerovia UZ6 tem 80 quilômetros de largura. Ou seja, o mais provável, como narra Sant'anna, seria que "os dois jatos se cruzarem sem que seus pilotos, mesmo que estivessem olhando para fora, nem vissem a passagem um do outro".

Continua: "Se, por inspiração do demônio, os comandantes Chaves Júnior e Lepore e seus copilotos tivessem planejado e calibrado em seus instrumentos de bordo para aquele roçar de asas, não teriam conseguido. Segundo descrição da revista Vanity Fair, foi como se dois índios, um em cada extremidade de aldeia, e sem saber o que o outro estava fazendo, lançassem flechas para cima e elas se tocassem levemente no ar."

6.5.11

Robôs x humanos no telemarketing: quem ganha?

Há décadas, talvez séculos, a inteligência artificial aguça o imaginário, seja assustando ou gerando curiosidade e palpites. "É possível um robô superar o homem?" "A tecnologia vai nos eliminar?" Etc.

O computador que ganhou de Kasparov e Matrix eram o que me vinha à cabeça de imediato ao lembrar do tema. Agora tem também um episódio que aconteceu comigo esses dias, ao atender o celular. Era uma mocinha do telemarketing da Abril.

Antes, quero perguntar: já usaram o atendimento por telefone da Oi? Bem, você praticamente não fala com ninguém, nem tecla nada, é tudo no reconhecimento de voz. E é eficiente!

Já a Abril... Bem, estou aguardando um relógio de brinde dos putos desde setembro, quando renovei a Piauí, até agora. A mocinha liga e eu penso que é pra tratar do bendito, mas não, era pra me convencer a renovar a Info.

Depois de algumas negativas, ela pergunta, (mal?) treinada, por que eu não queria permanecer assinante. Expliquei que minha rotina já não me permitia dar conta mais de acompanhar nem uma revista mensal, avalie três. Veja bem: estava claro que o motivo tinha a ver com tempo, não com dinheiro, mesmo assim ela me sai com:

- Perfeitamente, senhor. Justamente por isso a Editora Abril está lhe dando uma oportunidade ainda mais em conta. Por apenas 10 parcelas de ...

É preocupante, engraçado e, ao mesmo tempo, e principalmente, cruel concluir que o robô da Oi não seria tão estúpido.

16.1.10

As pessoas seriam ainda mais bitoladas se não tivesse sido inventado o bloqueio a MSN, Orkut e afins no trabalho. Algum sociólogo visionário poderia fazer um estudo sério dos efeitos desse bloqueio para a Intelligentsia nacional (quiçá mundial).

No antediluviano 2003, quando estagiário do Sebrae, a falta do que fazer me levou a apelar pra leitura de jornais e foi assim que descobri os textos de Braulio Tavares no Jornal da Paraíba. Braulio publica essas colunas em seu blog, o qual ainda vai ser tombado como patrimônio cultural da humanidade.

Agora mais uma vez me vejo impedido de usar MSN, Orkut e afins e a saída é uma ronda pelos portais, como o R7, criado pela Record/Universal pra ser concorrente-gêmeo do G1. Ali descobri André Forastieri, que, soube depois, já foi da Set, editou a Bizz e atualmente aposta numa revista (de cinema, oh!) chamada Movie.

O primeiro post do cara que li comentava (e elogiava) Retalhos. Forastieri me convenceu não só a seguir lendo-o como a comprar a Graphic Novel - e não me arrependi, apesar de não ser (oficialmente) adolescente.

Em dezembro Papai Noel me trouxe, junto com a Piauí, um texto muito engraçado de André Czernobai, mais conhecido como Cardoso, uma minicelebridade da rede. Adivinha? Aproveitei as horas de ócio aqui no trampo pra fuçar os textos desse jornalista gaúcho até no nome (seu sobrenome se pronuncia "tchêrnobái").

E nessa eu cheguei até Gonzojornalismo: o filho bastardo do New Journalism , segundo seu autor a primeira monografia do país sobre o estilo criado por Hunter Thompson*. O texto é surpreendentemente leve, o que me lembrou algo que minha amiga Elisa falou sobre os trabalhos acadêmicos da Antropologia (a área dela), que, ao contrário da fama, seriam leituras agradáveis.

E é bom ler o trabalho do Capsdoso, principalmente pra quem se interesse por jornalismo e literatura.

Duvidam? Então talvez este trecho abra o apetite:

"A justificativa mais plausível para o uso de drogas no Gonzo Journalism nos remete ao legado deixado por Hunter Thompson, que abusava abertamente de álcool e drogas em grande quantidade e variedade. Logo nas primeiras páginas de Fear and Loathing in Las Vegas, ele descreve todo o material de trabalho que levava no porta-malas do carro:

Nós tínhamos duas bolsas de fumo, setenta e cinco botões de mescalina, cinco cartelas de ácido extremamente potente, um saleiro cheio até a metade de cocaína e toda uma galáxia de multi-coloridos estimulantes, tranquilizantes, gritantes, hilariantes... e também um quarto de tequila, um quarto de rum, uma caixa de Budweiser, cerca de um litro de éter e duas dúzias de nitrito de amila (1971, p.4)"

• Thompson escreveu Fear and Loathing in Las Vegas, que virou filme com Johnny Depp. O Gonzojornalismo é uma faceta do jornalismo literário em que o repórter/escritor se coloca como protagonista e não só como observador/registrador dos eventos. É uma radicalização do Novo Jornalismo. "Maiores informações" na Wikipédia ou comigo.