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6.8.15



Os agradecimentos em geral são uma parte chata e dispensável dos livros, tanto que geralmente os pulo. Mas há suas exceções:


"Sou extremamente grato a todos que contribuíram para que este livro chegasse até suas mãos: meus editores no Brasil, os fabricantes de papel, as gráficas, os motoristas de caminhão, os livreiros... e, é claro, as muitas árvores que deram tudo de si.

Agradeço a todos os escritores, poetas e dramaturgos que nos proporcionaram estas obras de literatura. Muitos sacrificaram liberdade pessoal, bem-estar econômico, sanidade, relacionamentos, fígado e vida para iluminar a condição humana."



5.8.14

300




Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!
Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.
Mário de Andrade



26.4.14

                                          Candelária

                                          Bancários

Em O Engenheiro, João Cabral de Melo Neto compara a cidade a um jornal. Fiquei com esse poema na cabeça desde que o conheci, coisa de um ano atrás. Esse trecho em especial, talvez porque previa que não tardaria e a minha "cidade diária" seria outra.

Não tem um dia em que eu não pare alguns minutos para espiar a rua, seja através de janelas ou da varanda. A rua e seus infinitos e imprevisíveis enredos, protagonizados pelos personagens que passam, a pé, de carro, com cachorro - ou, como eu, espiam.

Sim, porque por mais que eu goste de vistas, de profundidade de campo, a rua não teria graça nenhuma sem pessoas.

Assim, o jornal que João Pessoa me entregava era o de um bairro em crescimento. Todo dia um prédio começa a surgir. De dois ou três andares, quase sem exceção. Mas nem todos residenciais: ali a nova igreja católica, um pouco mais longe um novo shopping. Bairro "familiar" o Bancários. Você põe o pé fora de casa e ainda vê pessoas! Tomando uma no bar, levando o filho na escola. Gente, vida. A minha (família), continua ali.

O jornal da Candelária, aqui em Natown, me diz coisas diferentes. Os prédios têm bem mais de três andares e em vez de igreja, a nova arena da Copa dá as caras no horizonte. A impressão é a de um entorno mais desenvolvido, "acabado", não há tantos terrenos baldios. Mas também não há tanta gente na rua. Não chega nem perto da vibração do Bancários. Se for pra comprar com um bairro pessoense, diria que Candelária se assemelha a Miramar. Não chego, porém, a mirar o mar, mas um pedacinho do Parque das Dunas. Melhor que nada.

Mudar foi uma decisão difícil. Mas pesou a ideia de que, em se tendo opção, por que não variar o cardápio informativo? Sem falar que, como diz Cátia de França (que aliás já musicou João Cabral), é da natureza recomeçar.

4.12.13

Ele está de olho neles



O recém saído das rotativas Amálgama (2013), que, diga-se de passagem, marca a estreia em livro de Rubem Fonseca como poeta, aos 88 anos de idade e 50 de carreira literária, traz um poema intitulado Sopa de pedra, que pode ser tomado como uma metonímia do livro – e talvez da obra metaficcional do autor como um todo.

Um escrevia o nome da mulher amada com letras de macarrão
Enquanto a sopa esfriava no prato.
Outro era metade solidão e metade multidão.
Estou de olho neles.
Um andava com a espada sangrenta na mão.
Outro fingia que sentia o que de verdade sentia.
Este dizia que não cabe no poema o preço do feijão.
Estou de olho neles.
Este vê a vida como origem da sua inspiração,
A vida que é comer, defecar e morrer.
Todo poeta é maluco.
Estou de olho neles.
E também tem que ser maluco o pintor
E o músico e o prosador.
A loucura é muito boa
Para todo o criador.
Mesmo para os cozinheiros
Ou qualquer inventor.
Estou de olho neles.
É melhor ser capenga do que cego.
A poesia é uma sopa de pedra.
Cabe tudo dentro dela. 

Metonímia pois, neste poema sobre poesia, que dialoga com Ferreira Gullar e Fernando Pessoa, o eu-lírico reitera uma ideia que perpassa os outros textos (contos e poemas) da coletânea: todo escritor é louco, todo poeta é doente. A reapropriação da História literária pela literatura é uma das marcas da “metaficção historiográfica”, que, segundo Linda Hutcheon, é o que caracteriza o pós-modernismo na ficção. 

Dado o enorme volume de sua obra que dialoga com a História, em especial a literária, Rubem Fonseca confirma (ao menos em relação à sua própria criação) o que diz o narrador do seu romance autobiográfico José: “A melhor inspiração do escritor é sempre encontrada nos livros.” Ele está de olho neles.



15.10.13

Revisitando João Cabral

É impressionante quando algum aluno, limitado para certas tarefas, consegue surpreender em outras, a principio bem mais complexas.

Você pede à aluna para responder uma questão simples sobre Morte e visa severina, e ela me entrega um poema baseado na saga do retirante, que, a despeito da falta de refinamento (não há métrica, evidente), é imaginativo (é curiosa a mudança de foco narrativo na enigmática última estrofe, por exemplo), tem força intuitiva, além de ser uma fofura. Confiram.

Severino da Maria
Em busca de trabalhar
Com uma viagem árdua
Dias e noites a andar
Buscando vida famosa
Sonhando na terra luxar

Enfrentou terra esturricada
Defunto a enterrar
Passando por toda a Caatinga
Nada encontrou para se alimentar
Durante toda a viagem
O que fazia era resmungar

Chegando à cidade grande
Só decepções encontrei
Descobri que aqui na terra
Cada um vale o que tem
Se alguém falar na morte
Eu com a minha sorte
Vivo morto me encontrei

3.10.13

E com vocês... os já tradicionais microcontos produzidos por meu alunos!



“Se as águas do rio falassem, elas teriam muita história pra contar.”

Diane Duarte

“Da janela vi algo estranho. Parecia folhas se abraçando.”
Benilde Souza

“O mar com tanto sal e nós sem tempero.”
Fabiola Ferreira

“Tudo se fez claro para ela na hora em que apagaram as luzes.”
Júlio Muniz

“A vida deveria ser como uma dança: só alegria.”
Suerda Raissa

“Estou em um relacionamento à distância. É que vivemos em épocas diferentes.”
Mariléssia

"Como sou mudo, eu canto para a vida, pois só ela pode me ouvir."
Thiago

"Correu atrás da felicidade e acabou encontrando a realidade."
Claudicélia


Confira mais aqui.



26.4.13

"Teresa e Luísa riem como duas crianças. Oh, céus, como é difícil a arte poética! Vamos Teresa, a um pagode na Taberna do Sapo e das Três Cobras, cantar e dançar rondós e tarantelas? Como disse Byron, o bretão de alma de fogo, quem escreveria se tivesse coisa melhor para fazer? Ação, ação, isso é que é importante, não escrever, e muito menos rimar, vide a vida monótona dos escritores."


Rubem Fonseca

5.3.13

"As famílias dizem: 'Isso passa!' Não. Os bate-bocas não passam, e repito: - Num casal, os bate-bocas ficam enterrados, na carne e na alma, como sapos de macumba."

Nelson Rodrigues

10.12.12

Saiu uma nova fornada de microcontos dos meus alunos:



“Sempre correu demais, o que adiantou seu funeral.”

“Viveu, sorriu, se atirou do 5º andar. Era livre.”

“Quando o dia ainda não é dia, o galo fica a esperar.”

“Acordei tarde. O Sol estava se pondo. Tenho uma vida inteira pela frente.”

“A sogra era tão teimosa que morreu depois da esperança.”

“Todos a veem sorrindo, mas não sabem o que ela sente.”

“Aprendi a ter paciência por chegar rápido demais onde jamais quis ir.”



E este, que tá mais prum poema concreto:






Mais informações sobre essa atividade didática aqui.
E este



1.11.12

Carniceiro


Nasci em São Mamede. E como todos que nascem em São Mamede eu

Trabalhava em minhas Memórias quando o telefone tocou. Um trabalho, enfim. Um siamês chamado Carniceiro sumira. Como sempre fazia, antes de iniciar toda investigação complexa fui consultar Pai Gouveia, o pai-de-santo.

Um parêntese. Pai Gouveia não quer mais me atender, só porque lhe atrasei alguns pagamentos. Preciso falar a verdade: nunca paguei a Pai Gouveia. Não sei mais onde ele atende, Pai Gouveia é discreto, não precisa de publicidade. Pai Gouveia é outra história. Mas sei quem deve saber onde posso encontrá-lo: Juliana. Pai Gouveia vai me dar o serviço. Sem Pai Gouveia não tem Carniceiro e sem o gato não tem comida no prato.

Juliana é uma dona que andei pegando e resolveu pôr fim ao nosso relacionamento de sete anos e dois meses só porque me sustentava e achava que tinha direito a passar mais tempo comigo. Mais do que as três horas por semana. Mas sou um profissional. Pelo trabalho eu passo por cima do meu orgulho.

Juliana tem o péssimo hábito de não atender ligação a cobrar. Moro tão longe que preciso pegar dois ônibus para comprar um cartão de orelhão. Considero que, depois de três dias, já estava bom de fazer uma refeição e resolvo almoçar no restaurante popular, que cobra R$ 1. Boa, Lula.



Juliana sabe do Pai Gouveia, mas não quer me dar o endereço por telefone, tem que ser pessoalmente.

Tudo na vida tem consequência. O almoço no Centro me deixou sem dinheiro para pegar ônibus e fico esperando, espiando um cobrador com cara de banana para poder dar o ninja. Sou obrigado, agora que o golpe da Manassés não cola mais.

Triiiim. Abre a porta e vai logo me perguntando o senhor da última vez levou daqui uma toalha e um rolo de papel higiênico? Porra, Juliana, boa tarde pra você também. Depois de me obrigar a fazer amor por vinte e duas horas seguidas consigo sair de lá com o que queria. E um pacote de mariola oculto na pochete.

Já sei como chegar a Pai Gouveia. Mas preciso anranjar um disfarce muito bom para que ele me dê a informação que preciso. Ou pedir para alguém perguntar por mim. Mas quem ainda me faria um favor? A quem eu não devo ou nunca roubei? Juliana poderia quebrar mais este galho. Mas pode ser que ela não aceite outro pagamento na única moeda que disponho para oferecê-la. Sem falar no meu orgulho ferido pelo pé na bunda depois de oito anos e cinco meses. Bah. E se eu conseguisse um adiantamento? Será que alguém que batiza um siamês de Carniceiro confiaria neste detetive? Não está fácil pra ninguém. Fecha parêntese.

1.9.12

"A ciência e a tecnologia seriam usadas como se, a exemplo do sábado, tivessem sido feitas para o homem, e não (como no presente e ainda mais no Admirável Mundo Novo) como se o homem tivesse de ser adaptado e escravizado a elas.

Essa revolução verdadeiramente revolucionária deverá ser realizada não no mundo exterior, mas sim na alma e na carne dos seres humanos.

Um Estado totalitário verdadeiramente eficiente seria aquele em que os chefes políticos de um Poder Executivo todo-poderoso e seu exército de administradores controlassem uma população de escravos que não tivessem de ser coagidos porque amariam sua servidão. Fazer com que eles a amem é a tarefa confiada, nos Estados totalitários de hoje, aos ministérios de propaganda, diretores de jornais e professores."

5.7.12

Questão Christie

“Os apedidos dos jornais fervilham de poemas indignados e de advertências como esta, assinada por O Capitão Reformado: 'Maldição de Deus a todo o brasileiro que comprar gêneros ingleses. Maldição de Deus a todo o brasileiro que vender víveres à esquadra inglesa'." 


“Gonçalves Dias, residindo então na Alemanha, fica indignado com a arrogância britânica e sugere 'que se rasgue na rua a casaca do brasileiro que trouxer um objeto de fabricação inglesa'. Para o poeta, porém, não basta essa satisfação ao amor próprio. Era preciso que o país rompesse as relações diplomáticas com seu agressor, para sempre: 'Fique em boa hora essa semente de ódio para o futuro: nem sempre seremos o que somos, nem eles o que são, e da Inglaterra tudo é preferível à sua amizade.'


Fonte: A vida literária no Brasil durante o Romantismo, Ubiratan Machado 

25.5.12



“Naquele dia tentamos mudar o mundo, mas ele não quis acordo.”



“Mil voltas dadas na cama e o sono sem aparecer.”



“Ele era feio, ela era feia, mas juntos formavam um belo casal.”



“Se ele não tivesse acreditado tanto, não teria quebrado a cara.”



“Brincando com a arma do pai, o irmãozinho, sem saber, ao disparar contra o outro, matou com uma única bala todos os sonhos de uma família feliz.”



“Tudo seria diferente se ele não estivesse lá.”



“Aquele policial racista acabou morto por uma arma branca.”



“Procura-se uma pessoa sem nome, sem documento e que ainda não nasceu. Quem vir, avise.”



“Olhei. Admirei. Pensei. Vi um céu tão lindo e Azul, que esconde tanta tristeza. E que a ameaça a luz.”



“Deixava suas contas atrasarem mesmo com o relógio adiantado em cinco minutos.”



“Seus risos eram escondidos. Dores insanas.”



“Eu via a cena, mas não sabia se estava participando.”



A qualidade dos microcontos acima - em uns mais, em outros menos - é evidente. Observe também a variedade. Tem politicamente correto, tragédia, exercícios de síntese, lição de moral, lirismo e até fantástico.

O que poderá ser surpresa é que essas produções são de alunos meus de EJA (Educação de Jovens e Adultos), de uma escola estadual da periferia. Perfil: entre 18 anos e a terceira idade, tiveram de interromper os estudos e agora correm atrás do prejuízo ou, mesmo, só entraram numa sala de aula já adultos.

São estudantes que têm algumas dificuldades, óbvio, e por isso alguns apelidam o EJA de “Eles Jamais Aprenderão”. Mas o que esses microcontos me ensinaram é que, com um empurrãozinho de nada, a literatura pode brotar em qualquer lugar.

9.3.12

Um clássico de LFV

Pôquer interminável
(extraído de "O Analista de Bagé")
Cinco jogadores em volta de uma mesa. Muita fumaça. Toca a campainha da porta. Um dos jogadores começa a se levantar.
Jogador 1 - Onde é que você vai ? Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
Jogador 2 - Bateram na porta. Eu vou abrir.
Jogador 1 - A sua mulher não pode abrir ?
Jogador 2 - A minha mulher saiu de casa. Levou os filhos e foi pra casa da mãe dela.
Jogador 1 - Sua mulher abandonou você só por causa de um joguinho de pôquer ?
Jogador 2 - É que nós estamos jogando há duas semanas.
Jogador 1 - E daí ?
Jogador 2 - Ela disse: "Ou os seus amigos saem, ou eu saio".
Jogador 1 - Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
(A campainha toca outra vez. O dono da casa vai abrir, sob o olhar de suspeita dos outros. É um garoto. O garoto se dirige ao Jogador 1.)
Garoto - A mãe mandou perguntar se o senhor vai voltar pra casa.
Jogador 1 - Quem é a sua mãe ?
Garoto - Ué. A minha mãe é a sua mulher.
Jogador 1 - Ah. Aquela. Diz que agora eu não posso sair.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
Garoto - Eu trouxe uma merenda para o senhor.
Jogador 3 - Epa. O golpe do sanduíche. Mostra !
Jogador 5 - Vê se não tem uma seqüência dentro.
Jogador 1 - Não tem nada. Só mortadela.
Garoto - A mamãe também mandou pedir dinheiro.
(Todos os jogadores cobrem suas fichas.)
Todos - Ninguém dá. Ninguém dá.
Jogador 1 - Diz pra sua mãe que eu estou com um four de ases na mão. Como ninguém vai ser louco de querer ver, a mesa é minha e nós estamos ricos.
Jogador 4 - Se você tem um four de ases então tem sete ases no baralho, por que eu tenho trinca.
Jogador 1 - Diz pra sua mãe que o cachorrão falhou.
(Toca o telefone. O dono da casa se levanta para atender.)
Jogador 3 - Mas o quê ? Não se joga mais ? Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
(Apesar dos protestos, o dono da casa vai atender o telefone. Volta.)
Jogador 2 - Era a mulher do Ramiro dizendo que o nenê já vai nascer.
Jogador 4 - Meu filho vai nascer. Tenho que ir lá.
Jogador 1 - Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
Jogador 4 - Mas é o meu filho.
Jogador 3 - Você vai pro batizado. Quem é que joga ?
Pôquer Interminável (II)
Cinco jogadores em volta de uma mesa de pôquer. A fumaça é de três semanas. Batem na porta.
Jogador 1 - Vai abrir a porta, ó mulher!
Jogador 2 - Espera aí. Você está gritando com a minha mulher. Quer sair no braço?
Todos - Ninguém sai. Ninguém sai.
Jogador 2 - Com a minha mulher, grito eu. Vai abrir a porta, ó mulher
(Quem chega é uma senhora que se dirige a um dos jogadores.)
Senhora - Vitinho...
Jogador 3 - Mamãe...
Senhora - Há três semanas que você não sai dessa mesa, Vitinho!
Jogador 1 - Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
Senhora - Eu trouxe uma camisa pra você trocar...
Jogador 4 - Epa. Examina a camisa. O golpe da mãe é conhecido. Já vi mãe trazer camisa com seqüência fechada.
(Vitinho veste a camisa depois de mostrar que não tem nada escondido. O jogador 5 se levanta.)
Jogador 1 - Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
Jogador 5 - Mas eu vou ao banheiro.
Jogador 1 - Outra vez?
Jogador 5 - A última vez que eu fui faz dois dias!
Jogador 1 - Pois então. Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
Senhora - Vitinho, eu também trouxe um bolo.
Jogador 1 - Epa.
Os outros - Epa. Epa.
Jogador 2 - Jjá vi muito bolo de mãe com recheio de três valetes.
(Abrem o bolo para examinar.)
Senhora - Quando é que você vai sair desse jogo, Vitor?
Jogador 1 - Ninguém sai. Só a mãe.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
Jogador 2 - Vamos jogar. De quanto é o bolo?
Jogador 4 - não dá pra ver. tem pedaço de bolo em cima.
Jogador 1 - Agora essa. Tem bolo no bolo. Vocês estão me saindo...
Os outros - ninguém sai. ninguém sai.
Pôquer Interminável (III)
Cinco homens em volta de uma mesa de pôquer. Não se enxerga quase nada através da fumaça de um mês.
Jogador 1 - Espera um pouquinho. Cadê meu sanduíche?
Jogador 2 - Você não tinha jogado o sanduíche?
Jogador 1 - E sanduíche é ficha?
Jogador 2 - Estava no meio da mesa e eu peguei.
Jogador 3 - Esperem. Quem ganhou a última mesa fui eu. O sanduíche é meu.
Jogador 4 - Desse jeito nós vamos ficar aqui a vida inteira.
Jogador 3 - A vida inteira eu não posso.
Jogador 2 - Só porque você está ganhando?
Jogador 3 - Em 82 vai ter a Copa do Mundo na televisão e eu vou ver.
Jogador 1 - Ninguém vai.
Os outros - Ninguém vai. Ninguém vai.
(Toca o telefone. O Jogador 3 vai atender. Volta.)
Jogador 2 - Quem era?
Jogador 3 - Minha mulher. Nossa casa está prendendo fogo.
Jogador 1 - Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
(Entra uma mulher na sala. Dirige-se a um dos jogadores.)
Mulher - Preciso de dinheiro.
Todos (tapando as fichas) - Ninguém dá. Ninguém dá.
Jogador 1 - Quem é que deixou essa mulher entrar?
Mulher - Como, quem é que deixou entrar? A casa é minha. Se alguém tem que sair, são vocês.
Jogador 1 - Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
Jogador 3 - O que é isso?
Jogador 2 - É a porta. Eu vou abrir.
Jogador 1 - Epa.
Os outros - Epa. Epa.
Jogador 1 - Eu conheço o golpe da porta. Vai abrir com um par de nove e volta com um four de damas. Deixa as cartas.
(O Jogador 2 vai abrir a porta. Volta cercado por três homens.)
Jogador 2 - É a polícia.
Jogador 1 - Bota o seis no baralho que vão entrar mais três.
Jogador 3 - Não é melhor sair alguém?
Jogador 1 - Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.

20.10.11

Meninos, ele viu

Rubem Fonseca, once again, sobre a Copa de 50:

"O jogo com a Espanha foi inesquecível. O estádio estava superlotado, como nas outras ocasiões. A Espanha tinha um timaço. Ganhamos por 6 a 1. Quando fizemos o quarto gol, aos onze minutos do segundo tempo, o estádio começou a cantar a marchinha popular "Touradas em Madri". Não demorou muito para que as duzentas mil pessoas (ou mais, consta que houve uma invasão de penetras por um dos portões) começassem a cantar em uníssono: Eu fui às touradas em Madri, pararatibum, bum, bum, pararatibum, bum, bum, e quase não volto mais aqui, pra ver Peri beijar Ceci, pararatibum, bum, bum, pararatibum, bum, bum. Quando a multidão cantava pararatibum, bum, bum, o som era tão estentóreo que o cimento e os vergalhões de ferro das arquibancadas tremiam e vibravam como se fossem se romper. Nunca houve, nem haverá, um coro de vozes tão faustoso, magnificente, pomposo, ruidoso, dantesco, apoteótico, em que centenas de milhares de pessoas empolgadas e felizes cantavam em uníssono, a plenos pulmões, celebrando de maneira fantástica uma vitória. Sou um velho escritor profissional, mas não tenho palavras para descrever aquele momento."

Imagine se tivesse. Vamos à final, contra a Cisplatina:

"Quando o jogo acabou, o silêncio foi profundo, tão estrondoso (perdoem o oxímoro) que doía em nossos ouvidos. Duzentas mil pessoas mudas e surdas. Até os choros eram silenciosos, e as lágrimas escorriam apenas dos olhos dos mais fortes, aqueles que não haviam ficado transidos, estarrecidos e obnubilados com a desgraça que se abatera sobre nós.
O sofrimento do dia 16 de julho de 1950 jamais esquecerei. Para descrever o que senti naquela tarde, vem-me sempre à mente a famosa frase de Conrad, em O coração das trevas: o horror, o horror, o horror." 

2014 está aí.

2.9.11

"Sabrina não saía da minha casa. Trouxe uma mala com coisas, roupas, discos de Tim Maia. Comecei a ficar com raiva dela, com raiva do Tim Maia, mas mesmo assim fodíamos fodíamos, maldito banco, malditas notas novinhas saídas fresquinhas da Casa da Moeda. Eu sabia a hora em que Sabrina chegava e antes dela chegar eu pegava o retrato de Paula e tocava duas punhetas para eu poder broxar na cama e ela se decepcionar comigo e largar do meu pé. Mas Sabrina tinha maneiras de fazer o meu pau ficar duro e lá íamos nós, aquela loucura. E eu era obrigado a tomar vitaminas, que Sabrina me empurrava goela baixo, e mingau de aveia e pó de guaraná e uma outra beberagem de ervas que ela preparava na cozinha.

(...)

E fodemos fodemos fodemos no dia seguinte a tarde inteira e todos os dias da semana, a tarde inteira, e na sexta-feira ela disse que só ia me ver na segunda e perguntou se com as outras mulheres eu também era assim. Eu não era bobo e dei a palavra de honra que não nunca havia acontecido aquilo comigo, era ela que fazia aquilo acontecer, eu gostava dela, amava ela e estava apaixonado por ela, gostava dela como uma criança gosta de sorvete de chocolate e amava ela como uma mãe ama o filho e estava loucamente apaixonado por ela e por isso eu fodia ela como um tigre fode uma onça. E a gente ria nos intervalos e comia sanduíche de queijo quente com coca-cola e eu não estava mentindo, com as outras mulheres era um mero rebote das notas da Casa da Moeda estalando, mas com Paula era paixão. Doía elevava inspirava sangrava."

Isso é Rubem Fonseca, gente.

31.3.11

Putaria vintage

"Eram os seios níveos e veiados de azul, trêmulos de desejo, a cabeça perdida entre a chuva de cabelos negros, os lábios arquejantes, o corpo todo palpitante: era a languidez do desalinho, quando o corpo da beleza mais se enche de beleza, e como uma rosa que abre molhada de sereno, mais se expande, mais patenteia suas cores."

2.10.10

No quadro "Clássicos do Futebol" do "Loucos por Futebol", da ESPN, apresentado por Roberto Porto, tomei conhecimento de um "causo real" que surprende até quem está acostumado com as histórias com selo "Coisas que só acontecem com o Botafogo". E também dá ideia do quanto essa tradição de bizarrices vem de longe.

Mesmo quem nunca leu "Os Sertões", ou só estudou a obra por meio de um "resumão" pra passar no vestibular, conhece a história do triângulo amoroso que culminou na morte do jornalista-escritor, graças à minissérie "Desejo".

O que eu não sabia (ou não lembrava) é que Euclides da Cunha Filho, em circunstâncias muito parecidas, também foi morto pelo algoz do pai, sete anos depois. Bom, o próprio Porto conta a história melhor que eu.

Lá é revelada a trágica história do zagueiro (e goleiro!) do alvinegro, Dinorah de Assis, o irmão para quem acabou sobrando uma bala de Euclides, que teve sérios problemas de saúde e acabou se suicidando num rio.

O que o pesquisador não relata no blog (mas falou no programa) é que a coisa tomou uma proporção tal que a antipatia a Dilermando atingiu o próprio Botafogo, que passou vários anos proibido de jogar no estado de São Paulo!

Quanto a Dilermando, apesar de ter sido baleado várias vezes, nos dois atentados, sobreviveu e foi absolvido em ambos. Ana Sólon da Cunha viveu até o fim com o homem que matou seu marido e filho. O casal morreu no mesmo ano, 1951.

26.9.10

"Magotes de crianças nuas, de hedionda magreza de esqueleto, de grandes ventres, obesos e lustrosos como grandes cabaças, lançavam olhares, terríveis de avidez, sobre pilhas de rapaduras, grandes medidas de quarta, desbordantes de farinha e feijão, pencas de bananas, rimas de beijus, alvíssimas tapiocas, montes de laranjas pequeninas e vermelhas, colhidas na véspera, nos pomares murchos de Meruoca.

Os míseros pequenos, estatelados ao tantálico suplício da contemplação dessas gulodices, atiravam-se às cascas de frutas lançadas ao chão, e se enovelavam, na disputa desses resíduos misturados com terra, em ferozes pugilatos. Era indispensável ativa vigilância para não serem assaltadas e devoradas as provisões à venda, pela horda de meninos, que não falavam; não sabiam mais chorar, nem sorrir, e cujos rostos, polvilhados de descamações cinzentas, sem músculos, tinham a imobilidade de couro curtido. Quando contrariados ou afastados pelos mercadores aos empuxões e pontapés, rugiam e mostravam os dentes roídos de escorbuto. Eram órfaõs quase todos, ou abandonados pelos pais; não sabiam os próprios nomes, nem donde vinham. Privados de memória, bestificados pela carência de carinhos, anestesiados pelo contínuo sofrer, eram esses pequeninos mendigos gravetos de uma floresta morta, despedaçados pelos vendavais, destroços de famílias, dispersadas pela ruptura de todos os laços de interesses e afetos.

Às vezes, a morte os surpreendia durante o sono, junto de um tronco ou na soleira de uma porta. Trespassavam como pássaros, sem contorções, sem estertor, sem um gemido, silenciosos, tranquilos, num sossego de morte, num sossego de liberdade."


A poderosa descrição acima está em "Luzia-Homem", romance naturalista de Domingos Olímpio ambientado no interior do Ceará, durante uma arrasadora seca na década de 1870.

A vida das crianças pobres de hoje parece ter melhorado só um pouco. Já outra passagem, que disponibilizo a seguir, me chamou atenção pela ideia, pelo visto imortal, da juventude transviada. "Ah no meu tempo..."




- (...) Sempre digo que essa criação d'agora não presta. Filhos muito senhores de si, por qualquer descuido, se desgarram. Os meus não punham pé em ramo verde. Muito amor, mas muito respeito e cabresto curto.

- Nestes tempos de miséria - ponderou um carpinteiro idoso - ninguém tem folga para cuidar da criação dos filhos. Vão se criando ao deus-dará, como filhos de pobre.