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7.1.14

Christiano Câmara, um cearense que não tem a conversa chata

"O Cinema Novo é totalmente divorciado do povo."

"O gigante americano está de joelhos. E você não vai imitar quem tá de joelhos."

"A improvisação do Jazz é livre. A do Choro é disciplinada. Essa história de solar livremente é ótimo pra quem executa e péssimo pra quem escuta."



Confira mais no curta abaixo.



http://portacurtas.org.br/filme/?name=rua_da_escadinha_162

4.2.12

Uma reprise e duas inéditas


Marta e Leonardo se esforçaram, mas não conseguiram disfarçar a surpresa quando viram Luciano, que nunca fora amigo íntimo do casal, bater à porta querendo saber se podia deixar as coisas ali.

Pôde. Acendeu um cigarro e começou a caminhar, inicialmente sem rumo. Depois decidiu conferir se a oficina mecânica onde trabalhara ainda existia.

Viu uma farmácia, dessas anabolizadas, 24 horas, ocupando o seu lugar. Observando melhor, porém, viu que a oficina ainda estava lá, mas não era a mesma. A farmácia tinha tomado dois terços do prédio onde fora a Auto Mecânica São Geraldo.

Estava aberta. Não viu rostos, só ouviu ruídos de risadas e televisão. Não queria ser visto pelos antigos companheiros. Mas deixou-se perder por um instante em lembranças e essa demora foi-lhe fatal.

- Ei, aquele não é Luciano?

- É sim, é ele!

Fora descoberto. Não podia fugir. Nem queria falar. Chico, Valber e Nêgo sabiam que ele sempre foi calado e meio estranho. Mas agora parecia mais.

Aos quatro juntaram-se duas moças que não eram do tempo de Luciano. Formou-se uma roda de expressões constrangidas, uns com as mãos nos bolsos, outros coçando a barba, uns fitando o chão, outros se entreolhando.

Ninguém falava nada e Luciano teve tempo para observar o lugar com mais atenção. Aquilo parecia tudo, menos uma oficina: o chão limpo, as paredes cheirando a tinta fresca e, finalmente, nenhum carro de capô erguido.

- A gente tá reformando.

Essas quatro palavras de Valber fizeram aquele grupo redescobrir a faculdade de comunicar-se.

- A nossa ideia é fazer uma oficina junto com um salão de beleza. Pra atrair a freguesia feminina, né? E também os maridos que vierem com as esposas vão poder dar uma olhada no carro enquanto esperam a patroa. Agora e gente enrica! – Emendou Chico, procurando, sem sucesso, um eco de aprovação na face de Luciano.

- Uma oficina e um salão num espaço que não é nem metade de quando era só oficina... – divagou.

Nêgo tentou mudar de assunto:

- Você se formou em quê mesmo?

Luciano olhou para o amigo e viu, por sobre seus ombros, ao longe, a ponte.

Onze anos antes, num dia ensolarado como aquele, notou o reflexo do sol poente no rio pela janela do ônibus e pensou que em São Paulo jamais veria algo parecido com aquilo. Mesmo se a poluição deixasse, não haveria tempo, não haveria horizonte, não a veria.

- Eu vou cortar seu cabelo, vem.  – Propôs Glória.

Luciano obedeceu.

- Você gosta de sorvete? Aqui na farmácia vende. Ritinha, quando eu acabar aqui pega um sorvete lá pra gente tomar!

- Uma bola de flocos, uma de coco e cauda de caramelo.

O espanto foi geral e inevitável. Em qualquer outro contexto soaria como um simples pedido. Porém, era a primeira frase que os velhos colegas ouviam sair da boca de Luciano em mais de uma década. Ritinha e Glória já começavam a achar que o homem era surdo-mudo ou doido.

O recém-chegado, ao contrário, se mantinha inexpressivo, imóvel, fitando a si no espelho.

- Ela jogou o sorvete inteiro na minha camisa nova quando eu disse que ia embora. Uma bola de flocos, uma de coco e cauda de caramelo. De casquinha.

***

O que dá em mim
É agonia
Se não fosse assim
Não viria

***


Assim você me mata

Por que você é assim?
Áspera, rude, antipática, tratante.
Você evita que as pessoas se aproximem de você.
Gostem de você.
Mas elas gostam mesmo assim.
Bom pra você.
Ruim pra mim.

24.9.11

O meu "Viajo porque preciso, volto porque te amo":


Quer saber o verdadeiro motivo dessa viagem? Você. Ou melhor, esquecer você. Aí eu passo por Campina e começo a me lembrar daquela noite em que quebramos a cama e não fizemos mais nada a não ser dar gargalhadas. A imagem de você rindo e tapando a boca com as mãos não me saía da cabeça. Todo esse tempo comigo e nunca deu uma risada sem esconder o sorriso. Soledade, Juazeirinho, Junco do Seridó e começo a subir a serra. Bem quando começa a escurecer. Ver o crepúsculo na serra de Santa Luzia foi demais pra mim. Comecei a chorar, acredita? E sabe há quanto tempo eu não chorava? Aí parei num posto e o frentista álcool ou gasolina, doutor? Álcool. Mas não pro carro, é pra mim mesmo. O que você tem aí de bebida? Agora só tem Dreher, doutor. Manda. E lá vou eu de Santa Luzia até Patos tomando conhaque no gargalo e dirigindo. Você sabe o que é dirigir mais de 40 quilômetros numa rodovia à noite e bêbado? Mas tem mais. Música, pensei, música vai me distrair. Liguei o rádio. Não tinha levado CD. Só pegava uma FM. Sabugi FM, acho que era isso. A Sabugi FM devia tocar Cavaleiros do Forró, Calcinha Preta, Calypso. Ou Luiz Gonzaga. Mas em vez disso tocou Fagner e Zé Ramalho. É sacanagem demais, o caba chorando de dor-de-cotovelo e ter que ouvir Zé Ramalho e Fagner? Mas então cheguei em Patos, vivo e sem ganhar nenhum ponto na carteira. Era noite e a cidade tava movimentadíssima por causa dos turistas. Não se via um carro com placa de lá. E desses carros as músicas que saíam, agora sim, eram de Cavaleiros do Forró, Calcinha Preta e Calypso. Meu Deus, o que porra eu tô fazendo aqui? Visitei alguns parentes rapidamente e inventei uma desculpa pra voltar. Viajei na mesma noite, não passando de 80 por hora, afinal tinha bebido mais da metade daquela garrafa sozinho. Cheguei em casa, a primeira coisa que fiz, não, a primeira foi dormir, a segunda coisa que fiz, com ressaca mais da desilusão do que do Dreher, foi apagar tudo o que me lembrasse você do computador. Tudo. Começando pelo papel de parede. Não ficou uma foto, não ficou um e-mail. Ah, te bloqueei no MSN pra não correr o risco de entrar e você estar on line. E deletei as MP3 de Fagner e Zé Ramalho.