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22.11.14




Reaprender a paquerar. Lembre-se: alguém até pode vir até você, mas tu não é Cantareira pra aguentar três meses de seca, é? Então, não esqueça: um combo de olhar + sorriso malicioso é mais promissor que match no Tinder. Abrir a porta do carro e mandar flores não são itens obrigatórios; ligar no dia seguinte, sim. Dar presentes fofos. Dar teus pulos, mas dar três. Reaprender a namorar. Limpar a gota de ketchup que caiu na coxa dela com a língua. Putaria no cinema. E no ônibus. Viajar junto, sim! Viajar junto! Compartilhar o fone de ouvido. Romance. Romance. Entender que nem sempre dá pra dar duas. Entender que nem sempre dá pra dar uma. D-R. Aguente: não queria estar preso por vontade? Pazes e – eita – três seguidas. Ler pra ela a passagem que achou interessante no livro que folheia na livraria. Romance. Dar presentes safados. Putaria. Ciúme. Viajar junto. Selfie pro instagram. D-R. Outra D-R. Reaprender a paquerar.




26.8.13

Domingo no Goiamum

Prólogo
Esse menino sempre teve o costume de sair sem avisar. E também de não ligar informando o paradeiro, dizer onde vai dormir. E deixa a gente sem dormir. Mas dessa vez ele foi longe demais. Não tá com a namorada, e ela também não sabe dele. E parece que não quer saber e tem raiva de quem sabe. Dois dias! Dois dias sem notícias do ingrato.
  
Um branco no banco
O dia começou errado já de manhã. Lembro de Rubem Fonseca, tento esquecer o resto. E agora? Só faltava essa. Ônibus errado e sem saber ao certo onde desci. Era de se esperar que algum dia eu fosse pagar por desde menino só sair de carro, sempre lendo alguma coisa, sem prestar atenção na rua. Como assim ter duas linhas com o mesmo nome, mas com números diferentes? 509 e 518. É semioticamente estúpido. E agora estou aqui, longe da BR, perto de só deus sabe.
Ei, e não é que o lugar não é feio? Quem diria que daqui se pode ver o mar? Só ver mesmo. Porque até chegar na praia tem que fazer um arrodeio e tanto, contornando a mata. Mas a vista, grátis e à mão, é espetacular.
Um conjunto habitacional. Muito grande, muitos blocos. Será que consigo entrar? Mole. Quem tem medo de ser roubado onde não se tem nada a perder? Não existe segurança. Ou será que, ao contrário, só aqui é que é seguro? Devaneio. Deve ser o calor. Ou a fome. Ah, se fosse só isso...
É domingo e as pessoas estão em casa. Provavelmente o único dia em que muitos aqui podem aproveitar suas casas, a família, os vizinhos. Não estão vendo TV, nem distraídos com smartphones ou notebooks (por que não têm? Talvez...). Nos espaços entre os blocos de concreto implorando uma demão de tinta, crianças correm sem vigilância, som alto sai dos carros (provavelmente a aparelhagem de som vale mais do que os carros), mas as pessoas não dançam; conversam (gritando), bebem e comem churrasco. Som de domingo. São felizes.
Poucos notam a presença daquele estranho. Devem estar acostumados a ver playboys por ali em busca de droga ou outra distração mais ou menos ilegal.
Deixo o enorme condomínio. Cansado, sento numa calçada. Lembro de Augusto dos Anjos. Assombrado com minha sombra magra, pensava no destino.
À minha frente, no asfalto, noto que há mais de vinte minutos uma policial está sentada no banco do motorista da viatura. Tão entediada quanto eu, porém, pra sua sorte, só entediada mesmo. Penso que quem consome em sua dieta informativa apenas programas de TV sensacionalistas certamente acha que os “homens da lei” devem ser pessoas ultraocupadas, a todo momento livrando os “cidadãos de bem” dos “marginais”. Cadê a violência? Minha cabeça não está boa.
Uma segunda policial entra no banco do passageiro. Eu resolvo entrar no banco de trás. Definitivamente, minha cabeça não está boa. Elas se entreolham.
Hesitação. O intruso inesperado era branco e não estava mal vestido. Pelo menos, não do tipo mal vestido que não tem outra opção.
Daí a policial do banco do passageiro pergunta, num tom sério levemente intimidador, o que eu estava fazendo ali. Disse que dentro do carro parecia mais confortável que na calçada. Considerei que podia descansar na viatura, visto que ela foi comprada com nossos impostos. Ela respondeu, engraçadinho, podia te prender por desacato, e que era bom eu começar a falar sério. Falei que de repente se elas não tivessem nada pra fazer, que tal darmos um rolé? Dessa vez ela riu alto, a do banco do motorista também, que até então se mantinha inexpressiva. A gente vai agora pro posto aqui do bairro, te deixamos lá, disse a do banco do carona. Cuidado na vida, rapaz, se despediu, com um riso simpático, no posto policial do Goiamum. Como era grande aquele bairro! Ter cuidado na vida deu errado pra mim, moça, falo sozinho. Policiais nunca dão uma dentro.

Sigo andando. Estou numa espécie de parque, que me faz lembrar uma taba (como se eu já tivesse visto uma!). Todo aquele verde ao redor, aquelas pessoas alegremente estranhas, sinto vontade de chorar.
Vejo uma igreja tão antiga quanto bonita, apesar de mal cuidada. Creio que o entorno daquele templo barroco não mudou nada desde que ele foi erguido. Preservado pelo abandono. Ao me aproximar, porém, percebo que a igreja não está vazia. Acontece um casamento.
Sempre vivi nesta cidade e nem mesmo sabia que existia esse lugar. O problema sou eu ou o mundo?

Ladeira abaixo
Caminho mais entre aqueles prédios antigos e até esqueço do cansaço. Outras coisas são mais difíceis de não lembrar. Chego perto de uma falésia. Sento e contemplo o céu, que está ainda mais bonito do que em um fim de tarde comum. Penso nas aliterações de “crepúsculo” e “precipício”. Se eu estivesse lá embaixo, com certeza entraria na água. Há quanto tempo não vou à praia? Talvez dê pra descer essa barreira... Dá trabalho, me arranho, mas desço. A maré subiu. Anoiteceu. Me dou conta de que estou vestido, nos bolsos celular e carteira, mas o que lamento mesmo é ela não estar ali comigo pra sentir aquele cheiro quente e ácido de mar.

1.11.12

Carniceiro


Nasci em São Mamede. E como todos que nascem em São Mamede eu

Trabalhava em minhas Memórias quando o telefone tocou. Um trabalho, enfim. Um siamês chamado Carniceiro sumira. Como sempre fazia, antes de iniciar toda investigação complexa fui consultar Pai Gouveia, o pai-de-santo.

Um parêntese. Pai Gouveia não quer mais me atender, só porque lhe atrasei alguns pagamentos. Preciso falar a verdade: nunca paguei a Pai Gouveia. Não sei mais onde ele atende, Pai Gouveia é discreto, não precisa de publicidade. Pai Gouveia é outra história. Mas sei quem deve saber onde posso encontrá-lo: Juliana. Pai Gouveia vai me dar o serviço. Sem Pai Gouveia não tem Carniceiro e sem o gato não tem comida no prato.

Juliana é uma dona que andei pegando e resolveu pôr fim ao nosso relacionamento de sete anos e dois meses só porque me sustentava e achava que tinha direito a passar mais tempo comigo. Mais do que as três horas por semana. Mas sou um profissional. Pelo trabalho eu passo por cima do meu orgulho.

Juliana tem o péssimo hábito de não atender ligação a cobrar. Moro tão longe que preciso pegar dois ônibus para comprar um cartão de orelhão. Considero que, depois de três dias, já estava bom de fazer uma refeição e resolvo almoçar no restaurante popular, que cobra R$ 1. Boa, Lula.



Juliana sabe do Pai Gouveia, mas não quer me dar o endereço por telefone, tem que ser pessoalmente.

Tudo na vida tem consequência. O almoço no Centro me deixou sem dinheiro para pegar ônibus e fico esperando, espiando um cobrador com cara de banana para poder dar o ninja. Sou obrigado, agora que o golpe da Manassés não cola mais.

Triiiim. Abre a porta e vai logo me perguntando o senhor da última vez levou daqui uma toalha e um rolo de papel higiênico? Porra, Juliana, boa tarde pra você também. Depois de me obrigar a fazer amor por vinte e duas horas seguidas consigo sair de lá com o que queria. E um pacote de mariola oculto na pochete.

Já sei como chegar a Pai Gouveia. Mas preciso anranjar um disfarce muito bom para que ele me dê a informação que preciso. Ou pedir para alguém perguntar por mim. Mas quem ainda me faria um favor? A quem eu não devo ou nunca roubei? Juliana poderia quebrar mais este galho. Mas pode ser que ela não aceite outro pagamento na única moeda que disponho para oferecê-la. Sem falar no meu orgulho ferido pelo pé na bunda depois de oito anos e cinco meses. Bah. E se eu conseguisse um adiantamento? Será que alguém que batiza um siamês de Carniceiro confiaria neste detetive? Não está fácil pra ninguém. Fecha parêntese.

21.2.12

Linguagens, códigos e suas tecnologias

Sempre foi esquisita. Quando desconfiava de mim pedia para ler o meu pé esquerdo - nunca o direito, que seria sonso. Assim a quiromante de membros inferiores descobria minhas puladas de cerca. Maldito pé esquerdo.

Ao que se seguia longas brigas sermões DR eu vou te deixar eu vou te deixar eu sempre fui fiel você não me dá valor

A ironia é que quem a deixou fui eu. Porém, um dia, uns três anos depois, sonhei com ela e senti saudades. Liguei. O número já não era dela. Escrevi. Nada. Insisti, disse que ela podia me mandar tomar no cu, catarse ruim era melhor que catarse nenhuma. E aí veio a resposta.

Nenhuma palavra.

Mas imagens, sim.

Isabel mantinha um diário em forma de história em quadrinhos. Sem texto, só datas. Pornografia em aquarela. Descobri que me traía semanalmente, religiosamente. Como a filha da puta pôde me esconder tanto tempo que desenhava tão bem?

15.2.12

Assim como os matemáticos são, entre os acadêmicos, os tipos mais interessantes, os enxadristas constituem o grupo mais excêntrico entre os desportistas. A paulista Katherine tem 12 anos e é autora de um alfabeto. Nas horas vagas trucida adversários com seus bispos de âmbar. Famoso por seus truques, o russo Vassily Tamchuk achou por bem aprender turco. O andaluz Vallejo alterna 24 horas de sono com 96 de vigília. O norueguês Carlsen não come pizza com queijo.

Quem joga xadrez em altíssimo nível costuma ser competitivo ao extremo. Diz-se que estão sempre a andar sobre uma corda bamba sobre o precipício da loucura. O letão Aaron Nimzowitsch, ao antever uma derrota, subiu na mesa e gritou: "Como posso perder para um idiota como este?"

4.2.12

Uma reprise e duas inéditas


Marta e Leonardo se esforçaram, mas não conseguiram disfarçar a surpresa quando viram Luciano, que nunca fora amigo íntimo do casal, bater à porta querendo saber se podia deixar as coisas ali.

Pôde. Acendeu um cigarro e começou a caminhar, inicialmente sem rumo. Depois decidiu conferir se a oficina mecânica onde trabalhara ainda existia.

Viu uma farmácia, dessas anabolizadas, 24 horas, ocupando o seu lugar. Observando melhor, porém, viu que a oficina ainda estava lá, mas não era a mesma. A farmácia tinha tomado dois terços do prédio onde fora a Auto Mecânica São Geraldo.

Estava aberta. Não viu rostos, só ouviu ruídos de risadas e televisão. Não queria ser visto pelos antigos companheiros. Mas deixou-se perder por um instante em lembranças e essa demora foi-lhe fatal.

- Ei, aquele não é Luciano?

- É sim, é ele!

Fora descoberto. Não podia fugir. Nem queria falar. Chico, Valber e Nêgo sabiam que ele sempre foi calado e meio estranho. Mas agora parecia mais.

Aos quatro juntaram-se duas moças que não eram do tempo de Luciano. Formou-se uma roda de expressões constrangidas, uns com as mãos nos bolsos, outros coçando a barba, uns fitando o chão, outros se entreolhando.

Ninguém falava nada e Luciano teve tempo para observar o lugar com mais atenção. Aquilo parecia tudo, menos uma oficina: o chão limpo, as paredes cheirando a tinta fresca e, finalmente, nenhum carro de capô erguido.

- A gente tá reformando.

Essas quatro palavras de Valber fizeram aquele grupo redescobrir a faculdade de comunicar-se.

- A nossa ideia é fazer uma oficina junto com um salão de beleza. Pra atrair a freguesia feminina, né? E também os maridos que vierem com as esposas vão poder dar uma olhada no carro enquanto esperam a patroa. Agora e gente enrica! – Emendou Chico, procurando, sem sucesso, um eco de aprovação na face de Luciano.

- Uma oficina e um salão num espaço que não é nem metade de quando era só oficina... – divagou.

Nêgo tentou mudar de assunto:

- Você se formou em quê mesmo?

Luciano olhou para o amigo e viu, por sobre seus ombros, ao longe, a ponte.

Onze anos antes, num dia ensolarado como aquele, notou o reflexo do sol poente no rio pela janela do ônibus e pensou que em São Paulo jamais veria algo parecido com aquilo. Mesmo se a poluição deixasse, não haveria tempo, não haveria horizonte, não a veria.

- Eu vou cortar seu cabelo, vem.  – Propôs Glória.

Luciano obedeceu.

- Você gosta de sorvete? Aqui na farmácia vende. Ritinha, quando eu acabar aqui pega um sorvete lá pra gente tomar!

- Uma bola de flocos, uma de coco e cauda de caramelo.

O espanto foi geral e inevitável. Em qualquer outro contexto soaria como um simples pedido. Porém, era a primeira frase que os velhos colegas ouviam sair da boca de Luciano em mais de uma década. Ritinha e Glória já começavam a achar que o homem era surdo-mudo ou doido.

O recém-chegado, ao contrário, se mantinha inexpressivo, imóvel, fitando a si no espelho.

- Ela jogou o sorvete inteiro na minha camisa nova quando eu disse que ia embora. Uma bola de flocos, uma de coco e cauda de caramelo. De casquinha.

***

O que dá em mim
É agonia
Se não fosse assim
Não viria

***


Assim você me mata

Por que você é assim?
Áspera, rude, antipática, tratante.
Você evita que as pessoas se aproximem de você.
Gostem de você.
Mas elas gostam mesmo assim.
Bom pra você.
Ruim pra mim.

24.9.11

O meu "Viajo porque preciso, volto porque te amo":


Quer saber o verdadeiro motivo dessa viagem? Você. Ou melhor, esquecer você. Aí eu passo por Campina e começo a me lembrar daquela noite em que quebramos a cama e não fizemos mais nada a não ser dar gargalhadas. A imagem de você rindo e tapando a boca com as mãos não me saía da cabeça. Todo esse tempo comigo e nunca deu uma risada sem esconder o sorriso. Soledade, Juazeirinho, Junco do Seridó e começo a subir a serra. Bem quando começa a escurecer. Ver o crepúsculo na serra de Santa Luzia foi demais pra mim. Comecei a chorar, acredita? E sabe há quanto tempo eu não chorava? Aí parei num posto e o frentista álcool ou gasolina, doutor? Álcool. Mas não pro carro, é pra mim mesmo. O que você tem aí de bebida? Agora só tem Dreher, doutor. Manda. E lá vou eu de Santa Luzia até Patos tomando conhaque no gargalo e dirigindo. Você sabe o que é dirigir mais de 40 quilômetros numa rodovia à noite e bêbado? Mas tem mais. Música, pensei, música vai me distrair. Liguei o rádio. Não tinha levado CD. Só pegava uma FM. Sabugi FM, acho que era isso. A Sabugi FM devia tocar Cavaleiros do Forró, Calcinha Preta, Calypso. Ou Luiz Gonzaga. Mas em vez disso tocou Fagner e Zé Ramalho. É sacanagem demais, o caba chorando de dor-de-cotovelo e ter que ouvir Zé Ramalho e Fagner? Mas então cheguei em Patos, vivo e sem ganhar nenhum ponto na carteira. Era noite e a cidade tava movimentadíssima por causa dos turistas. Não se via um carro com placa de lá. E desses carros as músicas que saíam, agora sim, eram de Cavaleiros do Forró, Calcinha Preta e Calypso. Meu Deus, o que porra eu tô fazendo aqui? Visitei alguns parentes rapidamente e inventei uma desculpa pra voltar. Viajei na mesma noite, não passando de 80 por hora, afinal tinha bebido mais da metade daquela garrafa sozinho. Cheguei em casa, a primeira coisa que fiz, não, a primeira foi dormir, a segunda coisa que fiz, com ressaca mais da desilusão do que do Dreher, foi apagar tudo o que me lembrasse você do computador. Tudo. Começando pelo papel de parede. Não ficou uma foto, não ficou um e-mail. Ah, te bloqueei no MSN pra não correr o risco de entrar e você estar on line. E deletei as MP3 de Fagner e Zé Ramalho.