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15.5.16




Eu dissemino
Tu disse: "Minas!"
E aonde nós vamos
Disseminamos



25.4.15




Só diga que quer dar tchau quando quiser.

A cidade não quer ser sua mulher.




13.11.14



É impressão minha ou
É impressão minha
É impressão
É



3.11.14



Por que(m) chora a passageira do avião?
O preço da passagem
A lembrança da massagem
O que não é passageiro
Ou a tristeza extrema
Que não cabe no poema
De Gullar?

Por que(m) chora a passageira do avião?
O leite derramado?
A saudade do amado
Qual gilete na jugular?

Por que(m) chora a passageira do avião?
Não se ria
Mas quem diria
É só o novo Almodóvar

Na mini televisão.



2.9.14



Às vezes, sai de sintonia - sem razão aparente.
Temos controle sobre o que queremos ouvir - até certo ponto.
Somos pegos de surpresa - para o bem e para o mal.
Imprevisível, quase indomável – ainda bem.


A vida vem em ondas – como o rádio.



4.12.13

Ele está de olho neles



O recém saído das rotativas Amálgama (2013), que, diga-se de passagem, marca a estreia em livro de Rubem Fonseca como poeta, aos 88 anos de idade e 50 de carreira literária, traz um poema intitulado Sopa de pedra, que pode ser tomado como uma metonímia do livro – e talvez da obra metaficcional do autor como um todo.

Um escrevia o nome da mulher amada com letras de macarrão
Enquanto a sopa esfriava no prato.
Outro era metade solidão e metade multidão.
Estou de olho neles.
Um andava com a espada sangrenta na mão.
Outro fingia que sentia o que de verdade sentia.
Este dizia que não cabe no poema o preço do feijão.
Estou de olho neles.
Este vê a vida como origem da sua inspiração,
A vida que é comer, defecar e morrer.
Todo poeta é maluco.
Estou de olho neles.
E também tem que ser maluco o pintor
E o músico e o prosador.
A loucura é muito boa
Para todo o criador.
Mesmo para os cozinheiros
Ou qualquer inventor.
Estou de olho neles.
É melhor ser capenga do que cego.
A poesia é uma sopa de pedra.
Cabe tudo dentro dela. 

Metonímia pois, neste poema sobre poesia, que dialoga com Ferreira Gullar e Fernando Pessoa, o eu-lírico reitera uma ideia que perpassa os outros textos (contos e poemas) da coletânea: todo escritor é louco, todo poeta é doente. A reapropriação da História literária pela literatura é uma das marcas da “metaficção historiográfica”, que, segundo Linda Hutcheon, é o que caracteriza o pós-modernismo na ficção. 

Dado o enorme volume de sua obra que dialoga com a História, em especial a literária, Rubem Fonseca confirma (ao menos em relação à sua própria criação) o que diz o narrador do seu romance autobiográfico José: “A melhor inspiração do escritor é sempre encontrada nos livros.” Ele está de olho neles.



15.10.13

Revisitando João Cabral

É impressionante quando algum aluno, limitado para certas tarefas, consegue surpreender em outras, a principio bem mais complexas.

Você pede à aluna para responder uma questão simples sobre Morte e visa severina, e ela me entrega um poema baseado na saga do retirante, que, a despeito da falta de refinamento (não há métrica, evidente), é imaginativo (é curiosa a mudança de foco narrativo na enigmática última estrofe, por exemplo), tem força intuitiva, além de ser uma fofura. Confiram.

Severino da Maria
Em busca de trabalhar
Com uma viagem árdua
Dias e noites a andar
Buscando vida famosa
Sonhando na terra luxar

Enfrentou terra esturricada
Defunto a enterrar
Passando por toda a Caatinga
Nada encontrou para se alimentar
Durante toda a viagem
O que fazia era resmungar

Chegando à cidade grande
Só decepções encontrei
Descobri que aqui na terra
Cada um vale o que tem
Se alguém falar na morte
Eu com a minha sorte
Vivo morto me encontrei

10.12.12

Saiu uma nova fornada de microcontos dos meus alunos:



“Sempre correu demais, o que adiantou seu funeral.”

“Viveu, sorriu, se atirou do 5º andar. Era livre.”

“Quando o dia ainda não é dia, o galo fica a esperar.”

“Acordei tarde. O Sol estava se pondo. Tenho uma vida inteira pela frente.”

“A sogra era tão teimosa que morreu depois da esperança.”

“Todos a veem sorrindo, mas não sabem o que ela sente.”

“Aprendi a ter paciência por chegar rápido demais onde jamais quis ir.”



E este, que tá mais prum poema concreto:






Mais informações sobre essa atividade didática aqui.
E este



27.8.12

entrepromessas

Quedo-me c'uma dúvida
Quiçá seja de mais gente
Não sei se vou ser feliz
Ou se vou seguir em frente

25.5.12



“Naquele dia tentamos mudar o mundo, mas ele não quis acordo.”



“Mil voltas dadas na cama e o sono sem aparecer.”



“Ele era feio, ela era feia, mas juntos formavam um belo casal.”



“Se ele não tivesse acreditado tanto, não teria quebrado a cara.”



“Brincando com a arma do pai, o irmãozinho, sem saber, ao disparar contra o outro, matou com uma única bala todos os sonhos de uma família feliz.”



“Tudo seria diferente se ele não estivesse lá.”



“Aquele policial racista acabou morto por uma arma branca.”



“Procura-se uma pessoa sem nome, sem documento e que ainda não nasceu. Quem vir, avise.”



“Olhei. Admirei. Pensei. Vi um céu tão lindo e Azul, que esconde tanta tristeza. E que a ameaça a luz.”



“Deixava suas contas atrasarem mesmo com o relógio adiantado em cinco minutos.”



“Seus risos eram escondidos. Dores insanas.”



“Eu via a cena, mas não sabia se estava participando.”



A qualidade dos microcontos acima - em uns mais, em outros menos - é evidente. Observe também a variedade. Tem politicamente correto, tragédia, exercícios de síntese, lição de moral, lirismo e até fantástico.

O que poderá ser surpresa é que essas produções são de alunos meus de EJA (Educação de Jovens e Adultos), de uma escola estadual da periferia. Perfil: entre 18 anos e a terceira idade, tiveram de interromper os estudos e agora correm atrás do prejuízo ou, mesmo, só entraram numa sala de aula já adultos.

São estudantes que têm algumas dificuldades, óbvio, e por isso alguns apelidam o EJA de “Eles Jamais Aprenderão”. Mas o que esses microcontos me ensinaram é que, com um empurrãozinho de nada, a literatura pode brotar em qualquer lugar.

4.2.12

Uma reprise e duas inéditas


Marta e Leonardo se esforçaram, mas não conseguiram disfarçar a surpresa quando viram Luciano, que nunca fora amigo íntimo do casal, bater à porta querendo saber se podia deixar as coisas ali.

Pôde. Acendeu um cigarro e começou a caminhar, inicialmente sem rumo. Depois decidiu conferir se a oficina mecânica onde trabalhara ainda existia.

Viu uma farmácia, dessas anabolizadas, 24 horas, ocupando o seu lugar. Observando melhor, porém, viu que a oficina ainda estava lá, mas não era a mesma. A farmácia tinha tomado dois terços do prédio onde fora a Auto Mecânica São Geraldo.

Estava aberta. Não viu rostos, só ouviu ruídos de risadas e televisão. Não queria ser visto pelos antigos companheiros. Mas deixou-se perder por um instante em lembranças e essa demora foi-lhe fatal.

- Ei, aquele não é Luciano?

- É sim, é ele!

Fora descoberto. Não podia fugir. Nem queria falar. Chico, Valber e Nêgo sabiam que ele sempre foi calado e meio estranho. Mas agora parecia mais.

Aos quatro juntaram-se duas moças que não eram do tempo de Luciano. Formou-se uma roda de expressões constrangidas, uns com as mãos nos bolsos, outros coçando a barba, uns fitando o chão, outros se entreolhando.

Ninguém falava nada e Luciano teve tempo para observar o lugar com mais atenção. Aquilo parecia tudo, menos uma oficina: o chão limpo, as paredes cheirando a tinta fresca e, finalmente, nenhum carro de capô erguido.

- A gente tá reformando.

Essas quatro palavras de Valber fizeram aquele grupo redescobrir a faculdade de comunicar-se.

- A nossa ideia é fazer uma oficina junto com um salão de beleza. Pra atrair a freguesia feminina, né? E também os maridos que vierem com as esposas vão poder dar uma olhada no carro enquanto esperam a patroa. Agora e gente enrica! – Emendou Chico, procurando, sem sucesso, um eco de aprovação na face de Luciano.

- Uma oficina e um salão num espaço que não é nem metade de quando era só oficina... – divagou.

Nêgo tentou mudar de assunto:

- Você se formou em quê mesmo?

Luciano olhou para o amigo e viu, por sobre seus ombros, ao longe, a ponte.

Onze anos antes, num dia ensolarado como aquele, notou o reflexo do sol poente no rio pela janela do ônibus e pensou que em São Paulo jamais veria algo parecido com aquilo. Mesmo se a poluição deixasse, não haveria tempo, não haveria horizonte, não a veria.

- Eu vou cortar seu cabelo, vem.  – Propôs Glória.

Luciano obedeceu.

- Você gosta de sorvete? Aqui na farmácia vende. Ritinha, quando eu acabar aqui pega um sorvete lá pra gente tomar!

- Uma bola de flocos, uma de coco e cauda de caramelo.

O espanto foi geral e inevitável. Em qualquer outro contexto soaria como um simples pedido. Porém, era a primeira frase que os velhos colegas ouviam sair da boca de Luciano em mais de uma década. Ritinha e Glória já começavam a achar que o homem era surdo-mudo ou doido.

O recém-chegado, ao contrário, se mantinha inexpressivo, imóvel, fitando a si no espelho.

- Ela jogou o sorvete inteiro na minha camisa nova quando eu disse que ia embora. Uma bola de flocos, uma de coco e cauda de caramelo. De casquinha.

***

O que dá em mim
É agonia
Se não fosse assim
Não viria

***


Assim você me mata

Por que você é assim?
Áspera, rude, antipática, tratante.
Você evita que as pessoas se aproximem de você.
Gostem de você.
Mas elas gostam mesmo assim.
Bom pra você.
Ruim pra mim.

26.7.09

João Pessoa havia deixado a Paraíba,
- Informava A União sobre a partida.

João Dantas, ferido no orgulho,
Do rival foi atrás. Era 26 de julho.

“À vizinha metrópole do Sul” fôra o Presidente
Visitar um amigo, que estava doente.
Porém o jornal oficial
Disse mais do que precisava,
E o mal, sem saber, antecipava:
O governante, quando em Recife,
Tomava chá na confeitaria.
Era a pista que ao patife faltava
Pra cometer a covardia.

A União (Que ironia!) deu a deixa ao assassino,
Que deve ter pensado:
"É hoje que eu mato aquele filho da puta!"

E na nota do jornal, o vaticínio mortal,
Do que chocaria o Estado:
"A demora do chefe do governo será muito curta."

13.7.09

A Praça da Paz é a praia dos Bancários

A lua começa a esvaziar, mas compensa a parte oculta pela sombra com um brilho incomum. Uns garotos transformam uma garrafa de vinho barato (tão barato que a garrafa é de plástico) em bola. Outros, um pouco mais velhos, escutam o forró (também de plástico, também barato) que sai dos alto-falantes de um carro. Crianças brincam. Duas moças conversam. Casais, vários casais. Um homem corre e sua. Outro homem olha a lua.