Na última quarta assisti na TVE o documentário “Mandinga em Manhattan – Como a capoeira conquistou o mundo”, representante da Bahia no projeto Doc TV. Este se trata de uma parceria das TVs educativas com produtores independentes, financiado pelo Ministério da Cultura, que promove a realização de documentários em todos os estados do Brasil.
O documentário dos baianos explora as controvérsias sobre o surgimento da capoeira, a cisão que resultou nos estilos angola e regional, conta a história de mestres lendários como Bimba e Pastinha etc.
Na minha opinião, eles exageram um pouco no bairrismo e dão uma idéia de que a capoeira nasceu (só) na Bahia e de lá se espalhou pro Brasil e pro mundo. Para o historiador Carlos Eugênio Líbano Soares, o Rio de Janeiro também merece ser considerado um dos berços da luta. Soares analisou documentos do século XIX para escrever “A capoeira escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850)”.
O período não foi escolhido por acaso. Em 1808 o Rio recebeu a família real lusa com sua comitiva de mais de 15 mil pessoas. Essa elite temia que aqui ocorresse uma revolta de escravos como a do Haiti, em 1791. Daí os capoeiristas terem sido duramente reprimidos.
Mas qual o motivo de os baianos requererem a capoeira como sua? Tudo indica que o fato de Salvador não ser o centro do poder contribuiu para que lá a repressão tenha sido mais branda, e por isso a capoeira pôde ser levada à frente com algum fôlego. Maurício Barros de Castro, que fez a reportagem “Mestres da roda”, para a National Geographic (junho de 2006), não me deixa mentir: “A repressão no Rio de Janeiro desterrou a maioria deles para a prisão em Fernando de Noronha. Na Bahia, contudo, a lei não foi levada com tanta consideração”.
A capoeira só deixou de ser crime em 1937, na onda do nacionalismo populista de Vargas. No mesmo ano, Bimba fundou em Salvador o Centro de Cultura Física e Capoeira Regional. Aí sim, ninguém mais segurou a capoeira.
O foco de “Mandinga em Manhattan” está na internacionalização da dança e no seu caráter diplomático. Mestre João Grande está há 40 anos em Nova Iorque e não fala inglês. Seus mais de 200 alunos primeiro precisam aprender português pra depois poderem lutar e cantar. Não são poucos os entrevistados estrangeiros que falam em português fluente. Muitos quiseram conhecer o Brasil depois que entraram na roda.
Legal. Mas enquanto via o programa e como a capoeira vem sendo exportada, também fiquei refletindo o quanto ela está sem prestígio, um tanto fora de moda, aqui dentro.
Ao mesmo tempo em que exportamos cultura, importamos muito mais. Vide o Hip Hop, que da noite para o dia virou a “legítima forma de expressão da periferia”. Isso me incomoda. É como se antes do Rap não existisse cultura negra no Brasil. Uma das coisas que eu não gosto em
Diamante de Sangue (e não são poucas) é que os guerrilheiros sempre escutam Rap americano enquanto usam drogas e mutilam inocentes. Esse pessoal acha que todos os negros do mundo gostam de Rap. Podem até não saber disso ainda, mas gostam. Me lembra aquela época em que a indústria cultural fez todo mundo acreditar que só era jovem quem gostasse de rock.
O samba desceu do morro e parece que pra lá não volta mais, o funk é alienado, D2 se vendeu e só sobrou MV Bill e seus asseclas com cara de mau. Os que defendem o Rap engajado fazem questão de se diferenciar dos colegas americanos que aparecem na MTV falando sobre carrões e mulheres. Essa galera acredita realmente que as letras das músicas e os grafites de protesto vão melhorar a sociedade. Sou mais a malemolência de D2 ou as letras bem-humoradas e inteligentes do injustiçado Gabriel O Pensador do que essa cambada de chatos.
O negócio é que esse pessoal é muito bom de marketing. O grafite ganhou as grifes e tá até na abertura de Malhação. Não que eu não goste de tudo na cultura Hip Hop. Beat Box é legal, por exemplo. Também há grafiteiros que são artistas de mão cheia, como
Os Gêmeos, paulistanos conhecidos internacionalmente e cujas obras de engajadas não têm nada. O que me deixa cabreiro é a monocultura do Hip Hop e do caráter de salvador de pátria do qual ele vem gozando. Uma coisa é deixar de ser tachado de coisa de bandido, O.K., outra coisa é virar a salvação da humanidade. Talvez os americanos desencanados é que estejam certos. “Mudar o mundo? Eu quero é beber champanhe e andar com umas gostosas na minha limusine”.
Enquanto os gringos se encantam com a capoeira, aqui ela anda esquecida. Já um negócio sem graça como break, tem um monte de gente fazendo. Sei não. Só pode ter gente ganhando dinheiro com isso.