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7.2.08

Post de cinzas

Histórias de verão 5: Bandeira Branca

Ele: tirolês. Ela: odalisca. Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas tinham só quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro. Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das mães e ficaram sentados no chão, fazendo um montinho comum de confete, serpentina e poeira, até serem arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro baile de carnaval.
Encontraram-se de novo no baile infantil do clube do ano seguinte. Ele com o mesmo tirolês, agora apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o montinho, mas desta vez as mães reagiram e os dois foram obrigados e dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas.
Só no terceiro carnaval se falaram.
- Como é teu nome?
- Janice. E o teu?
- Píndaro.
- O que?!
- Píndaro.
- Que nome!
Ele de legionário romano, ela de índia americana.
Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no carnaval e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinham visitar uma tia no carnaval, a tia é que era sócia.
- Ah.
Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma, tentando encher a boca das meninas de confete, e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do "Bandeira Branca", ele veio, e a puxou pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E quando se despediram ela o beijou na face, disse "Até o carnaval que vem" e saiu correndo.
No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as fantasias dos dois combinaram. Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu:
- Me dá alguma coisa.
- O que?
- Qualquer coisa.
- O leque!
O leque da bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.
No ano seguinte ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo toda à sua aprocura, um havaiano desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro pensando nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo, antegozando o momento de encontrá-la outra vez no baile. E ela não apareceu. Marcelão, o mau elemento da sua turma, tinha levado gim para misturar com o guaraná. Ele bebeu demais. Teve que ser carregado para casa. Acordou na sua cama sem lençol, que estava sendo lavado. O que acontecera?
- Você vomitou a alma - disse a mãe.
Era exatamente como se sentia. Como alguém que vomitara a alma e nunca a teria de volta. Nunca. Nem o leque tinha mais do cheiro dela.
Mas no ano seguinte ele foi ao baile dos adultos no clube - e lá estava ela! Quinze anos. Uma moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.
- Sei lá. Bávara tropical - disse ela, rindo.
Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais solto. Contou que faltara no ano anterior porque a avó morrera, logo no carnaval.
- E aquela bailarina espanhola?
- Nem me fala. E o toureiro?
- Aposentado.
A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermudas, finalmente um brasileiro. Ela estava com um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao grupo alguém disse "Píndaro?!" e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu uma desculpa e afastou-se. Foi procurar o Marcelão. O Marcelão anunciara que levaria várias garrafas presas nas pernas, escondidas sob as calças da fantasia de sultão. O Marcelão tinha o que ele precisava para encher o buraco deixado pela alma. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida, começando pelo carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro.
Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro. Passou todo o baile encostado numa coluna adornada, bebendo o guaraná clandestino do Marcelão, vendo ela passar abraçada com uma sucessão de primos e amigos de primos, principalmente um halterofilista, certamente burro, talvez até criminoso, que reduzira sua fantasia a um par de calças curtas de couro. Pensou em dizer alguma coisa, mas só o que lhe ocorreu dizer foi "Pelo menos o meu tirolês era autêntico" e desistiu. Mas quando a banda começou a tocar "Bandeira Branca" e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo "Não vale, você cresceu mais do que eu" e encostando a cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.
Encontraram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste carnaval. Por acaso, num aeroporto. Ela desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos no Rio. Ela disse: "Quase não reconheci você sem fantasia." Ele custou a reconhecê-la. Ela estava gorda, nunca a reconheceria, muitos menos de bailarina espanhola. A última coisa que ele lhe dissera fora "Preciso te dizer uma coisa", e ela dissera "No carnaval que vem, no carnaval que vem" e no carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais aparecera. Explicou que o pai tinha sido transferido para outro Estado, sabe como é, Banco do Brasil, e como ela não tinha o endereço dele, como não sabia nem o sobrenome dele, e, mesmo, não teria onde tomar nota na fantasia de falsa bávara...
- O que você ia me dizer, no outro carnaval? - perguntou ela.
- Esqueci - mentiu ele.
Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Os filhos dele moram no Rio, com a mãe. Ela, o marido e a filha moram em Curitiba, o marido também é do Banco do Brasil... E a todas essas ele pensando: digo ou não digo que aquele foi o momento mais feliz da minha vida, "Bandeira Branca", a cabeça dela no meu ombro, e que todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu...


O Estado de São Paulo - 14 de fevereiro de 1999


L.F. Verissimo

3.2.08

Ela, a imperatriz na passarela, é samba é arte, é coisa bela.

Eu sou, sou caruana eu sou, Patuanu nasceu do girador.

Sonhava Nassau, com uma Holanda tropical, Nassau, e nesse sonho ele então pediu: quero te ver, Brasil!

Neste palco iluminado só dá Lalá! És presente imortal, só dá Lalá!

Enfeitei meu coração de confete e serpentina, minha mente se fez menina... (?)

Brudumpraticundumtucurundum meu samba, minha gente, é isso aí, é isso aí.

Samba, a mulata é a tal... Salve a loirinha com seus olhos de cristal!

Bahia, terra sagrada, Iemanjá, Iansã...
Mangueira supercampeã!

Ah, vira, virou, vira, virou
A Mocidade chegou
Virando as viradas dessa vida

É no chuê, chuê
É no chuá, chuá
Toda trizteza já deixei pra lá!

Mostrar ao mundo o perfil do brasileiro
Malandro, bonito, sagaz e maneiro
Que canta e dança, pinta e borda e é feliz

Explode coração na maior felicidade!
É lindo o meu Salgueiro contagiando e sacudindo essa cidade!

Sou índio, sou forte, sou filho da sorte, eu sou natural
Eu sou Naturaaal
Sou guerreiro, sou a luz da liberdade
Car-na-vaaaal!

Eles trouxeram o balanço do deserto mas não tem o gingado certo pra cruzar o nosso chão.

O Sertão não é só lamento
Meu momento é aqui
Faço a festa e lavo a alma hoje na Sapucaí.

A mão que faz a bomba, faz o samba
E Deus faz gente bamba
A bomba que explode nesse carnaval
É a Mocidade levantando o seu astral!

Vou cair na gandaia com a minha bateria
No balanço da mulata, explosão de alegria!

Lá vem a Viradouro aí, meu amor!
Coisa igual eu nunca vi, que esplendor!
(E vem das Treeeevas...)
Vem das Trevas, tudo pode acontecer
A noite vira dia, luz de um novo amanhecer.

É Dom Quixote, ô, É Zé Pereira, é Charlie Chaplin no embalo da Mangueira!

29.1.08

Em 1991, uma mulher tailandesa de 57 anos chamada Yooket Paen estava caminhando por sua fazenda quando escorregou em um monte de bosta de vaca, se agarrou em um fio da cerca viva (que mantinha o gado confinado) e foi eletrocutada até a morte. Dias depois de seu funeral, sua irmã estava mostrando aos vizinhos como tinha sido o acidente quando ela também escorregou agarrou o mesmo cabo, e morreu igual a sua irmã.

Dick Shawn (1924-1987) foi um comediante que teve um ataque do coração e morreu durante uma brincadeira que pareceu estranhamente apropriada: estava caçoando dos políticos que em sua campanha diziam clichês como: - "Nunca vou dormir em meu cargo!" - Quando então Shawn caiu de bruços. No começo, o público gargalhou pensando que isso era parte do show, até que em determinado momento um empregado do teatro subiu ao palco, constatou seu pulso e começou a lhe dar os primeiros socorros. Chegaram os paramédicos, e pediram ao público que fossem para casa: Dick não terminou a piada.

Em 1985, para celebrar seu primeiro ano sem ter que lamentar nenhum afogado, os salva-vidas do departamento de recreação de Nova Orleans decidiram fazer uma festa. Quando a festa terminou, um convidado de 31 anos chamado Jerome Moody foi encontrado morto no fundo da piscina do clube.

Homer e Langley Collyer eram arquivistas compulsivos. Os dois irmãos tinham medo de desfazer-se de qualquer coisa, e colecionaram obsessivamente diários e outros lixos em sua casa. Inclusive prepararam armadilhas nos corredores e portas para proteger-se dos intrusos. Em 1947, um telefonema anônimo denunciou que tinha uma pessoa morta na casa dos irmãos, e após enfrentar grande dificuldades para entrar, a polícia encontrou o corpo de Homer Collyer. Duas semanas mais tarde, após a retirada de cerca de 100 toneladas de lixo, finalmente encontraram o corpo de Langley Collyer parcialmente decomposto, a alguns poucos metros além de onde tinham encontrado seu irmão. Aparentemente, Langley estava tentando levar comida para Homer engatinhando sobre os túneis entre pilhas de diários quando disparou uma de suas armadilhas. Dias depois, Homer morreu de fome.

Após a guerra civil norte-americana, o controvertido político Clement Vallandigham, de Ohio, transformou-se num advogado de sucesso que raras vezes perdia um caso. Em 1871 defendeu Thomas McGehan, acusado de disparar contra um tal Tom Myers durante uma disputa num bar. A defesa de Vallandigham baseava-se em que Myers tinha disparado contra ele mesmo ao empunhar sua pistola quando estava ajoelhado. Para convencer o júri, Vallandigham decidiu demonstrar sua teoria. Infelizmente, utilizou por engano uma pistola carregada e terminou disparando contra ele mesmo comprovando a teoria do disparo acidental e conseguindo exonerar seu cliente.


Você encontra mais pílulas de tragicomédia aqui.

23.1.08

Se este fosse um país sério...

...os autores/intérpretes e quem se dispusesse a gravar/executar uma 'canção' como a abaixo transcrita seriam mortos a pedradas em plena praça, com o perdão do trocadilho mas não da justiça.

Eu iria além: quem gosta da mesma devia ter a mesma sorte.


Dormi na Praça
Bruno e Marrone


Composição: Fatima Leão / Elias Muniz

Caminhei sozinho
Pela rua
Falei com as estrelas
E com a lua
Deitei no banco da praça
Tentando te esquecer
Adormeci e sonhei com você...

No sonho, você veio
Provocante
Me deu um beijo doce
E me abraçou
E bem na hora "H"
No ponto alto do amor
Já era dia
O guarda me acordou...

Seu guarda
Eu não sou vagabundo
Eu não sou delinquente
Sou um cara carente
Eu dormi na praça
Pensando nela
Seu guarda
Seja meu amigo
Me bata, me prenda
Faça tudo comigo
Mas não me deixe
Ficar sem ela...


O final é a minha parte favorita. Primeiro, o eu-lírico pede que o guarda "faça tudo" com ele, o prenda, para em seguida implorar que ele o deixe ficar com amada.
Ora, até com um Q.I. de Forrest Gump dá pra perceber a contradição: uma vez preso, como ele poderia desfrutar do amor da companheira?

Haja nonsense.

18.1.08

Amanhã estréia o programa que eu ajudei a produzir.
Mais informações aqui.
100 +

16.1.08

Vagabundo? Metódico? Gênio?
Esse cara impôs para si uma curiosa missão: em três anos, escutar todos os álbuns citados no livro "1001 discos pra ouvir antes de morrer". No blog, contagem regressiva, comentários e links para baixar os discos.

Você não precisa ler o resto do post. Vá logo comentar ou fazer outra coisa.


Parte enche-lingüiça do post: dia desses tava no PC e escutando a TV, que deixei ligada, quando de repente um portuga dando uma entrevista me chama a atenção. Vou ver quem é o coroa e descubro que se tratava de um rapaz de seus 30 anos, o que me levou a constatar que português inapelavelmente fala como velho, pode ser Cristiano Ronaldo ou Manoel de Oliveira.


Dica cultural.

3.1.08

Paraíba, capital Paraíba

Sessão Especial discute mudança no nome da Capital

A sessão especial para debater a mudança do nome da Capital paraibana, realizada na manhã desta quinta-feira, 29, na Câmara Municipal, foi prestigiada por autoridades e população. Com as galerias e demais dependências da Câmara lotadas, a sessão foi presidida pelo vereador Fuba e teve a participação dos vereadores Tavinho Santos (PTB), Padre Adelino (PSB) e Paula Frassinete (PSB).
A sessão contou também com a participação do presidente do Instituto de Genealogia e Heráldica da Paraíba, João Abelardo Lins; do presidente da Ong Padre Mestre João do Rego, José Flávio da Silva; membros do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba (IHGP); além de professores, estudantes e estudiosos do assunto.
O arcebispo da Paraíba, dom Aldo Pagotto, não pôde comparecer ao avento, mas enviou correspondência ao vereador Flávio Eduardo Fuba (PSB), autor do requerimento de realização da sessão, apoiando o debate que prevê o retorno do nome Parahyba em substituição à designação João Pessoa.
Na carta enviada a Fuba, dom Aldo Pagotto lamenta não estar presente à sessão especial. No entanto, o arcebispo dá uma contribuição ao debate informando o que muita gente não havia prestado atenção: apesar da mudança do nome, em 1930, a Igreja Católica no estado decidiu manter o nome 'Paraíba' como denominação da circunscrição eclesiástica, que corresponde a Arquidiocese da Paraíba e não Arquidiocese de João Pessoa.


Fonte: http://www.cmjp.pb.gov.br

Não votei em Fuba nem esperava muita coisa dele. Mas sua atuação parlamentar vem me agradando. Não sei que projetos propostos por ele foram aprovados, mas o simples fato de ele levantar discussões como essa já são dignas de elogios. Casas legislativas são espaços para debates, mas nem sempre é o que vemos. A Assembléia Legislativa vive conferindo votos de aplauso e homenagens de mérito duvidoso, como a entrega do título de cidadão paraibano a Collor, por exemplo.
Outra de Fuba que deu o maior bafafá foi a idéia de estabelecer uma cota mínima obrigatória de música local na programação das rádios. Não pegou porque a legislação que rege a radiodifusão é federal... Bom, pelo menos serviu para se discutir o tema.
Agora é a vez do nome da cidade. Eu sou a favor da mudança. Mas mesmo que fosse contra, eu apoiaria o debate, por esclarecer à grande parte da população as circunstâncias em que se deu a mudança de "Paraíba" pra "João Pessoa". Muita gente acha que sempre foi "João Pessoa". Outros nem sabem quem foi o sujeito.
Se houvesse um plebiscito, por exemplo, o assunto ganharia de vez os meios de comunicação e as pessoas estariam aptas a refletir se a figura do então presidente da província e seu trágico fim justificam tamanha honra. Mais ou menos como o plebiscito sobre o sistema de governo de 1992, que ensinou o povo o que era monarquia e parlamentarismo.
Conhecendo a nossa história, o cidadão comum (esse Homer Simpson de que fala William Bonner) poderia se perguntar: "Se o governador fosse assassinado hoje e uma semana depois houvesse uma sessão na Assembléia para mudar o nome da capital para 'Cássio Cunha Lima', eu apoiaria?"

Em tempo: uma enquete realizada pelo site O Informativo sugere que a opção pela mudança do nome, pelo menos entre os mais instruídos, ganha de lavada da permanência de "João Pessoa".