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16.1.10

As pessoas seriam ainda mais bitoladas se não tivesse sido inventado o bloqueio a MSN, Orkut e afins no trabalho. Algum sociólogo visionário poderia fazer um estudo sério dos efeitos desse bloqueio para a Intelligentsia nacional (quiçá mundial).

No antediluviano 2003, quando estagiário do Sebrae, a falta do que fazer me levou a apelar pra leitura de jornais e foi assim que descobri os textos de Braulio Tavares no Jornal da Paraíba. Braulio publica essas colunas em seu blog, o qual ainda vai ser tombado como patrimônio cultural da humanidade.

Agora mais uma vez me vejo impedido de usar MSN, Orkut e afins e a saída é uma ronda pelos portais, como o R7, criado pela Record/Universal pra ser concorrente-gêmeo do G1. Ali descobri André Forastieri, que, soube depois, já foi da Set, editou a Bizz e atualmente aposta numa revista (de cinema, oh!) chamada Movie.

O primeiro post do cara que li comentava (e elogiava) Retalhos. Forastieri me convenceu não só a seguir lendo-o como a comprar a Graphic Novel - e não me arrependi, apesar de não ser (oficialmente) adolescente.

Em dezembro Papai Noel me trouxe, junto com a Piauí, um texto muito engraçado de André Czernobai, mais conhecido como Cardoso, uma minicelebridade da rede. Adivinha? Aproveitei as horas de ócio aqui no trampo pra fuçar os textos desse jornalista gaúcho até no nome (seu sobrenome se pronuncia "tchêrnobái").

E nessa eu cheguei até Gonzojornalismo: o filho bastardo do New Journalism , segundo seu autor a primeira monografia do país sobre o estilo criado por Hunter Thompson*. O texto é surpreendentemente leve, o que me lembrou algo que minha amiga Elisa falou sobre os trabalhos acadêmicos da Antropologia (a área dela), que, ao contrário da fama, seriam leituras agradáveis.

E é bom ler o trabalho do Capsdoso, principalmente pra quem se interesse por jornalismo e literatura.

Duvidam? Então talvez este trecho abra o apetite:

"A justificativa mais plausível para o uso de drogas no Gonzo Journalism nos remete ao legado deixado por Hunter Thompson, que abusava abertamente de álcool e drogas em grande quantidade e variedade. Logo nas primeiras páginas de Fear and Loathing in Las Vegas, ele descreve todo o material de trabalho que levava no porta-malas do carro:

Nós tínhamos duas bolsas de fumo, setenta e cinco botões de mescalina, cinco cartelas de ácido extremamente potente, um saleiro cheio até a metade de cocaína e toda uma galáxia de multi-coloridos estimulantes, tranquilizantes, gritantes, hilariantes... e também um quarto de tequila, um quarto de rum, uma caixa de Budweiser, cerca de um litro de éter e duas dúzias de nitrito de amila (1971, p.4)"

• Thompson escreveu Fear and Loathing in Las Vegas, que virou filme com Johnny Depp. O Gonzojornalismo é uma faceta do jornalismo literário em que o repórter/escritor se coloca como protagonista e não só como observador/registrador dos eventos. É uma radicalização do Novo Jornalismo. "Maiores informações" na Wikipédia ou comigo.

28.12.09

15.12.09

Ordinário

Vimos que "persona" é "máscara" e que a partícula "gem" dá idéia de movimento, ação, ato, processo.

Epaminondas não costuma perder nenhum capítulo da novela das oito. Não porque seja fã de teledramaturgia, mas pra ter assunto. Toda mulher que chega na repartição ele comenta "Fulana perdeu o bebê, não foi?"

Já futebol, não acompanha, pois basta perguntas genéricas como "quem é o líder?" para render algumas frases. Depois do primeiro fã do ludopédio interceptado no corredor, ele já sabe que time vai bem e qual está penando. Mesmo assim, ao encontrar o segundo, vem a inquisição: "E aí, quem tá liderando agora?"

É o máximo de interação que Epaminondas consegue. Tem a rara capacidade de não criar, ou sequer reter algum conhecimento que possa passar adiante. Epaminondas é, portanto, invisível.

E Epaminondas também não recebe mensalão. Não largou a mulher pela amante de 19 anos, não abusou da filha do vizinho, não é gremista e muito menos achou o máximo o Calypso gravar com Paralamas.

Não deixa pra cuspir em casa só porque acha falta de educação escarrar na rua. Epaminondas nem se chama Epaminondas. Epaminondas não é um personagem.

No próximo capítulo falarei sobre a inutilidade das vogais.

21.11.09

Tirado da coluna de Xico Sá no Yahoo:

"Se o seu marido fuma, não arrume briga pelo simples fato de cair cinzas no tapete. Tenha cinzeiros espalhados por toda casa." (Jornal das Moças, 1957).

"Não se deve irritar o homem com ciúmes e dúvidas". (Jornal das Moças,1957)

"O noivado longo é um perigo, mas nunca sugira o matrimônio. ELE é quem decide - sempre!" (Revista Querida, 1953)

"Sempre que o homem sair com os amigos e voltar tarde da noite espere-o linda, cheirosa e dócil." (Jornal das Moças, 1958)

17.11.09

A Realidade me disse "oi"

Quinta passada foi a primeira vez em meses que eu fui à UFPB pela manhã. Foi quando experimentei duas sensações estranhas.

Estou no corredor do CCHLA, próximo à Praça da Alegria, quando sinto alguém bater nas minhas costas.

- Oi.

Era a minha sobrinha Rafaela, fera de Administração. Assim, mais cedo ou mais tarde isso aconteceria, né. Mas é totalmente diferente eu saberque ela passou no vestibular, começou a frequentar as aulas, de vê-la na universidade, com pasta e tudo. Aquela coisa de mundo das idéias e mundo das coisas, sabe? Só então caiu a primeira ficha: já sou tio de uma universitária.

A segunda foi uma decorrência natural da outra: era a Realidade, ali, cutucando minhas costas e avisando: você está ficando velho*.

*E ranzinza demais pra conseguir ver alguma graça em modinhas como Lady Gaga. Mas isso já é outra história.

2.11.09

"Você matou um homem apenas porque ele se desnudou na sua frente?"
"Não, não... Sim, também por isso."
"O que você fez com o corpo?"
"Vesti-o com suas roupas - já me acostumara a vestir gente morta - e ensaiei, como se fôssemos dois bailarinos, o modo de transportá-lo para a rua. Ele era frágil, pequeno, pesava apenas uns cinquenta quilos. Passei seu braço direito em torno do meu pescoço, segurei sua mão direita com minha mão esquerda e enlacei-o fortemente pela cintura com meu braço direito, levantando-o um pouco, de maneira que seus pés mal tocavam o chão. Passeei - na verdade, dancei - com ele dentro do quarto, em frente ao espelho. Eu queria que ele parecesse um bêbado sendo conduzido para casa por um amigo dedicado. Quer que eu te mostre como? Põe o braço aqui."
"Não."
"Esperei algumas horas, até pouco antes da madrugada, uma hora morta nos hotéis, em que a portaria está sempre ocupada por funcionários menos competentes. Saí com Sandro, passei pela portaria dizendo ao porteiro sonolento e desinteressado que meu amigo se excedera na bebida. Deixei-o sentado numa das cadeiras de calçada, presas à mesa por correntes para que não fossem roubadas, de um bar àquela hora fechado. Tirei todo o dinheiro do seu bolso e o relógio de pulso, do qual me livrei ao voltar para Paris."
"E o corpo não foi achado?"
"Foi. Saiu uma notícia pequena nos jornais, dizendo que Sandro Morelli - esse era seu nome completo - tinha uma ficha criminal de prostituição masculina, furto e outras infrações menores. A polícia voltou sua atenção para pistas falsas, suspeitos inocentes. Mais uma vez eu fora salvo pela estupidez da polícia."
"Não sei o que pensar", diz Clotilde. "Você não me parece um assassino reincidente. Mas sinto que é tudo verdade. E me pergunto, serei a próxima?"
"Deixa eu mordeu teu joelho", diz Landers, deitando-se de costas no chão.
Clotilde, inteiramente nua, ajoelha-se sobre Landers de forma a que o tórax do homem fique entre suas pernas abertas. Depois levanta um dos joelhos e encosta-o na boca de Landers. ele morde a rótula de Clotilde, deslocando o osso suavemente. Depois morde o outro joelho.
"Morde primeiro minha clavícula", diz Clotilde, curvando-se sobre ele. "Com mais força. Pobrezinho..."

Romance Negro, Rubem Fonseca