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2.9.14



Às vezes, sai de sintonia - sem razão aparente.
Temos controle sobre o que queremos ouvir - até certo ponto.
Somos pegos de surpresa - para o bem e para o mal.
Imprevisível, quase indomável – ainda bem.


A vida vem em ondas – como o rádio.



5.8.14

300




Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!
Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.
Mário de Andrade



30.6.14

Estive em Fortaleza e conheci:







- Uma hippie com pensamentos de direita;
- Um paranaense que estava viajando para esquecer um pé na bunda;
- Um indiano RADICADO em São Francisco com quem mantive o seguinte diálogo:
   - Você não tem sotaque indiano.
   - Como você percebeu?
   - Eu assisto The Big Bang Theory.







26.4.14

                                          Candelária

                                          Bancários

Em O Engenheiro, João Cabral de Melo Neto compara a cidade a um jornal. Fiquei com esse poema na cabeça desde que o conheci, coisa de um ano atrás. Esse trecho em especial, talvez porque previa que não tardaria e a minha "cidade diária" seria outra.

Não tem um dia em que eu não pare alguns minutos para espiar a rua, seja através de janelas ou da varanda. A rua e seus infinitos e imprevisíveis enredos, protagonizados pelos personagens que passam, a pé, de carro, com cachorro - ou, como eu, espiam.

Sim, porque por mais que eu goste de vistas, de profundidade de campo, a rua não teria graça nenhuma sem pessoas.

Assim, o jornal que João Pessoa me entregava era o de um bairro em crescimento. Todo dia um prédio começa a surgir. De dois ou três andares, quase sem exceção. Mas nem todos residenciais: ali a nova igreja católica, um pouco mais longe um novo shopping. Bairro "familiar" o Bancários. Você põe o pé fora de casa e ainda vê pessoas! Tomando uma no bar, levando o filho na escola. Gente, vida. A minha (família), continua ali.

O jornal da Candelária, aqui em Natown, me diz coisas diferentes. Os prédios têm bem mais de três andares e em vez de igreja, a nova arena da Copa dá as caras no horizonte. A impressão é a de um entorno mais desenvolvido, "acabado", não há tantos terrenos baldios. Mas também não há tanta gente na rua. Não chega nem perto da vibração do Bancários. Se for pra comprar com um bairro pessoense, diria que Candelária se assemelha a Miramar. Não chego, porém, a mirar o mar, mas um pedacinho do Parque das Dunas. Melhor que nada.

Mudar foi uma decisão difícil. Mas pesou a ideia de que, em se tendo opção, por que não variar o cardápio informativo? Sem falar que, como diz Cátia de França (que aliás já musicou João Cabral), é da natureza recomeçar.

7.1.14

Christiano Câmara, um cearense que não tem a conversa chata

"O Cinema Novo é totalmente divorciado do povo."

"O gigante americano está de joelhos. E você não vai imitar quem tá de joelhos."

"A improvisação do Jazz é livre. A do Choro é disciplinada. Essa história de solar livremente é ótimo pra quem executa e péssimo pra quem escuta."



Confira mais no curta abaixo.



http://portacurtas.org.br/filme/?name=rua_da_escadinha_162

4.12.13

Ele está de olho neles



O recém saído das rotativas Amálgama (2013), que, diga-se de passagem, marca a estreia em livro de Rubem Fonseca como poeta, aos 88 anos de idade e 50 de carreira literária, traz um poema intitulado Sopa de pedra, que pode ser tomado como uma metonímia do livro – e talvez da obra metaficcional do autor como um todo.

Um escrevia o nome da mulher amada com letras de macarrão
Enquanto a sopa esfriava no prato.
Outro era metade solidão e metade multidão.
Estou de olho neles.
Um andava com a espada sangrenta na mão.
Outro fingia que sentia o que de verdade sentia.
Este dizia que não cabe no poema o preço do feijão.
Estou de olho neles.
Este vê a vida como origem da sua inspiração,
A vida que é comer, defecar e morrer.
Todo poeta é maluco.
Estou de olho neles.
E também tem que ser maluco o pintor
E o músico e o prosador.
A loucura é muito boa
Para todo o criador.
Mesmo para os cozinheiros
Ou qualquer inventor.
Estou de olho neles.
É melhor ser capenga do que cego.
A poesia é uma sopa de pedra.
Cabe tudo dentro dela. 

Metonímia pois, neste poema sobre poesia, que dialoga com Ferreira Gullar e Fernando Pessoa, o eu-lírico reitera uma ideia que perpassa os outros textos (contos e poemas) da coletânea: todo escritor é louco, todo poeta é doente. A reapropriação da História literária pela literatura é uma das marcas da “metaficção historiográfica”, que, segundo Linda Hutcheon, é o que caracteriza o pós-modernismo na ficção. 

Dado o enorme volume de sua obra que dialoga com a História, em especial a literária, Rubem Fonseca confirma (ao menos em relação à sua própria criação) o que diz o narrador do seu romance autobiográfico José: “A melhor inspiração do escritor é sempre encontrada nos livros.” Ele está de olho neles.