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26.4.14

                                          Candelária

                                          Bancários

Em O Engenheiro, João Cabral de Melo Neto compara a cidade a um jornal. Fiquei com esse poema na cabeça desde que o conheci, coisa de um ano atrás. Esse trecho em especial, talvez porque previa que não tardaria e a minha "cidade diária" seria outra.

Não tem um dia em que eu não pare alguns minutos para espiar a rua, seja através de janelas ou da varanda. A rua e seus infinitos e imprevisíveis enredos, protagonizados pelos personagens que passam, a pé, de carro, com cachorro - ou, como eu, espiam.

Sim, porque por mais que eu goste de vistas, de profundidade de campo, a rua não teria graça nenhuma sem pessoas.

Assim, o jornal que João Pessoa me entregava era o de um bairro em crescimento. Todo dia um prédio começa a surgir. De dois ou três andares, quase sem exceção. Mas nem todos residenciais: ali a nova igreja católica, um pouco mais longe um novo shopping. Bairro "familiar" o Bancários. Você põe o pé fora de casa e ainda vê pessoas! Tomando uma no bar, levando o filho na escola. Gente, vida. A minha (família), continua ali.

O jornal da Candelária, aqui em Natown, me diz coisas diferentes. Os prédios têm bem mais de três andares e em vez de igreja, a nova arena da Copa dá as caras no horizonte. A impressão é a de um entorno mais desenvolvido, "acabado", não há tantos terrenos baldios. Mas também não há tanta gente na rua. Não chega nem perto da vibração do Bancários. Se for pra comprar com um bairro pessoense, diria que Candelária se assemelha a Miramar. Não chego, porém, a mirar o mar, mas um pedacinho do Parque das Dunas. Melhor que nada.

Mudar foi uma decisão difícil. Mas pesou a ideia de que, em se tendo opção, por que não variar o cardápio informativo? Sem falar que, como diz Cátia de França (que aliás já musicou João Cabral), é da natureza recomeçar.

7.1.14

Christiano Câmara, um cearense que não tem a conversa chata

"O Cinema Novo é totalmente divorciado do povo."

"O gigante americano está de joelhos. E você não vai imitar quem tá de joelhos."

"A improvisação do Jazz é livre. A do Choro é disciplinada. Essa história de solar livremente é ótimo pra quem executa e péssimo pra quem escuta."



Confira mais no curta abaixo.



http://portacurtas.org.br/filme/?name=rua_da_escadinha_162

4.12.13

Ele está de olho neles



O recém saído das rotativas Amálgama (2013), que, diga-se de passagem, marca a estreia em livro de Rubem Fonseca como poeta, aos 88 anos de idade e 50 de carreira literária, traz um poema intitulado Sopa de pedra, que pode ser tomado como uma metonímia do livro – e talvez da obra metaficcional do autor como um todo.

Um escrevia o nome da mulher amada com letras de macarrão
Enquanto a sopa esfriava no prato.
Outro era metade solidão e metade multidão.
Estou de olho neles.
Um andava com a espada sangrenta na mão.
Outro fingia que sentia o que de verdade sentia.
Este dizia que não cabe no poema o preço do feijão.
Estou de olho neles.
Este vê a vida como origem da sua inspiração,
A vida que é comer, defecar e morrer.
Todo poeta é maluco.
Estou de olho neles.
E também tem que ser maluco o pintor
E o músico e o prosador.
A loucura é muito boa
Para todo o criador.
Mesmo para os cozinheiros
Ou qualquer inventor.
Estou de olho neles.
É melhor ser capenga do que cego.
A poesia é uma sopa de pedra.
Cabe tudo dentro dela. 

Metonímia pois, neste poema sobre poesia, que dialoga com Ferreira Gullar e Fernando Pessoa, o eu-lírico reitera uma ideia que perpassa os outros textos (contos e poemas) da coletânea: todo escritor é louco, todo poeta é doente. A reapropriação da História literária pela literatura é uma das marcas da “metaficção historiográfica”, que, segundo Linda Hutcheon, é o que caracteriza o pós-modernismo na ficção. 

Dado o enorme volume de sua obra que dialoga com a História, em especial a literária, Rubem Fonseca confirma (ao menos em relação à sua própria criação) o que diz o narrador do seu romance autobiográfico José: “A melhor inspiração do escritor é sempre encontrada nos livros.” Ele está de olho neles.



15.10.13

Revisitando João Cabral

É impressionante quando algum aluno, limitado para certas tarefas, consegue surpreender em outras, a principio bem mais complexas.

Você pede à aluna para responder uma questão simples sobre Morte e visa severina, e ela me entrega um poema baseado na saga do retirante, que, a despeito da falta de refinamento (não há métrica, evidente), é imaginativo (é curiosa a mudança de foco narrativo na enigmática última estrofe, por exemplo), tem força intuitiva, além de ser uma fofura. Confiram.

Severino da Maria
Em busca de trabalhar
Com uma viagem árdua
Dias e noites a andar
Buscando vida famosa
Sonhando na terra luxar

Enfrentou terra esturricada
Defunto a enterrar
Passando por toda a Caatinga
Nada encontrou para se alimentar
Durante toda a viagem
O que fazia era resmungar

Chegando à cidade grande
Só decepções encontrei
Descobri que aqui na terra
Cada um vale o que tem
Se alguém falar na morte
Eu com a minha sorte
Vivo morto me encontrei

3.10.13

E com vocês... os já tradicionais microcontos produzidos por meu alunos!



“Se as águas do rio falassem, elas teriam muita história pra contar.”

Diane Duarte

“Da janela vi algo estranho. Parecia folhas se abraçando.”
Benilde Souza

“O mar com tanto sal e nós sem tempero.”
Fabiola Ferreira

“Tudo se fez claro para ela na hora em que apagaram as luzes.”
Júlio Muniz

“A vida deveria ser como uma dança: só alegria.”
Suerda Raissa

“Estou em um relacionamento à distância. É que vivemos em épocas diferentes.”
Mariléssia

"Como sou mudo, eu canto para a vida, pois só ela pode me ouvir."
Thiago

"Correu atrás da felicidade e acabou encontrando a realidade."
Claudicélia


Confira mais aqui.



26.8.13

Domingo no Goiamum

Prólogo
Esse menino sempre teve o costume de sair sem avisar. E também de não ligar informando o paradeiro, dizer onde vai dormir. E deixa a gente sem dormir. Mas dessa vez ele foi longe demais. Não tá com a namorada, e ela também não sabe dele. E parece que não quer saber e tem raiva de quem sabe. Dois dias! Dois dias sem notícias do ingrato.
  
Um branco no banco
O dia começou errado já de manhã. Lembro de Rubem Fonseca, tento esquecer o resto. E agora? Só faltava essa. Ônibus errado e sem saber ao certo onde desci. Era de se esperar que algum dia eu fosse pagar por desde menino só sair de carro, sempre lendo alguma coisa, sem prestar atenção na rua. Como assim ter duas linhas com o mesmo nome, mas com números diferentes? 509 e 518. É semioticamente estúpido. E agora estou aqui, longe da BR, perto de só deus sabe.
Ei, e não é que o lugar não é feio? Quem diria que daqui se pode ver o mar? Só ver mesmo. Porque até chegar na praia tem que fazer um arrodeio e tanto, contornando a mata. Mas a vista, grátis e à mão, é espetacular.
Um conjunto habitacional. Muito grande, muitos blocos. Será que consigo entrar? Mole. Quem tem medo de ser roubado onde não se tem nada a perder? Não existe segurança. Ou será que, ao contrário, só aqui é que é seguro? Devaneio. Deve ser o calor. Ou a fome. Ah, se fosse só isso...
É domingo e as pessoas estão em casa. Provavelmente o único dia em que muitos aqui podem aproveitar suas casas, a família, os vizinhos. Não estão vendo TV, nem distraídos com smartphones ou notebooks (por que não têm? Talvez...). Nos espaços entre os blocos de concreto implorando uma demão de tinta, crianças correm sem vigilância, som alto sai dos carros (provavelmente a aparelhagem de som vale mais do que os carros), mas as pessoas não dançam; conversam (gritando), bebem e comem churrasco. Som de domingo. São felizes.
Poucos notam a presença daquele estranho. Devem estar acostumados a ver playboys por ali em busca de droga ou outra distração mais ou menos ilegal.
Deixo o enorme condomínio. Cansado, sento numa calçada. Lembro de Augusto dos Anjos. Assombrado com minha sombra magra, pensava no destino.
À minha frente, no asfalto, noto que há mais de vinte minutos uma policial está sentada no banco do motorista da viatura. Tão entediada quanto eu, porém, pra sua sorte, só entediada mesmo. Penso que quem consome em sua dieta informativa apenas programas de TV sensacionalistas certamente acha que os “homens da lei” devem ser pessoas ultraocupadas, a todo momento livrando os “cidadãos de bem” dos “marginais”. Cadê a violência? Minha cabeça não está boa.
Uma segunda policial entra no banco do passageiro. Eu resolvo entrar no banco de trás. Definitivamente, minha cabeça não está boa. Elas se entreolham.
Hesitação. O intruso inesperado era branco e não estava mal vestido. Pelo menos, não do tipo mal vestido que não tem outra opção.
Daí a policial do banco do passageiro pergunta, num tom sério levemente intimidador, o que eu estava fazendo ali. Disse que dentro do carro parecia mais confortável que na calçada. Considerei que podia descansar na viatura, visto que ela foi comprada com nossos impostos. Ela respondeu, engraçadinho, podia te prender por desacato, e que era bom eu começar a falar sério. Falei que de repente se elas não tivessem nada pra fazer, que tal darmos um rolé? Dessa vez ela riu alto, a do banco do motorista também, que até então se mantinha inexpressiva. A gente vai agora pro posto aqui do bairro, te deixamos lá, disse a do banco do carona. Cuidado na vida, rapaz, se despediu, com um riso simpático, no posto policial do Goiamum. Como era grande aquele bairro! Ter cuidado na vida deu errado pra mim, moça, falo sozinho. Policiais nunca dão uma dentro.

Sigo andando. Estou numa espécie de parque, que me faz lembrar uma taba (como se eu já tivesse visto uma!). Todo aquele verde ao redor, aquelas pessoas alegremente estranhas, sinto vontade de chorar.
Vejo uma igreja tão antiga quanto bonita, apesar de mal cuidada. Creio que o entorno daquele templo barroco não mudou nada desde que ele foi erguido. Preservado pelo abandono. Ao me aproximar, porém, percebo que a igreja não está vazia. Acontece um casamento.
Sempre vivi nesta cidade e nem mesmo sabia que existia esse lugar. O problema sou eu ou o mundo?

Ladeira abaixo
Caminho mais entre aqueles prédios antigos e até esqueço do cansaço. Outras coisas são mais difíceis de não lembrar. Chego perto de uma falésia. Sento e contemplo o céu, que está ainda mais bonito do que em um fim de tarde comum. Penso nas aliterações de “crepúsculo” e “precipício”. Se eu estivesse lá embaixo, com certeza entraria na água. Há quanto tempo não vou à praia? Talvez dê pra descer essa barreira... Dá trabalho, me arranho, mas desço. A maré subiu. Anoiteceu. Me dou conta de que estou vestido, nos bolsos celular e carteira, mas o que lamento mesmo é ela não estar ali comigo pra sentir aquele cheiro quente e ácido de mar.

10.7.13

A religião no Censo 2010

O Rio de Janeiro, onde acontece este mês a Jornada Mundial da Juventude, é o estado menos católico do Brasil (45,8% da população). Já Rondônia é o mais evangélico (33,89%). O Piauí é o mais católico (85,1%) e o menos evangélico (9,7%).