8.2.10

Como me tornei saci

Horas após eu publicar o post anterior eu me encontrava numa emergência de hospital após cerca de 18 anos. Chamam a isso ironia do destino.

Ocorre que nós outros, adeptos do futebol moleque, provocamos inveja e revolta em adversários menos dotados de talento e em virtude disso somos caçados em campo. Não deu outra.



O.K. Acabou a parte engraçadinha do post; daqui pra frente relatarei tudo com fidelidade jornalística à verdade.

A contusão

O meu carrasco não alcançou um lançamento e a bola saiu pela linha de fundo (imaginária). Nisso ele ficou fora do campo e o time dele com um a menos, ou seja, era oportunidade de um contra-ataque pra gente. A bola ficou comigo e demorei algum tempo pensando pra quem lançar, e essa hesitação foi fatal.

Me preparo pra chutar a bola e de repente sinto dor. Muita dor. E quando dou fé tou no chão, esticado.

Foi tudo muito rápido e como recebi uma falta por trás, não sei direito o que houve. Helber viu e me disse que Ahlymo (esse é o nome da fera) pisou e puxou(?!) meu pé. O médico disse que não era normal um pisão fazer esse estrago. Eu acho que ele pisou quando eu estava tirando o pé do chão, e aí torceu.

Mas me precipito; falo mais da consulta adiante.

Bom, depois eu levanto e saio do "campo" mancando. Suo frio. A galera acha que não é grave e espera que eu volte a jogar. Eu, com o otimismo ingênuo que me é peculiar, falo que por enquanto não rolava mas ia esperar pra ver. Depois de alguns minutos desisto e volto pra casa (sorte que era perto) à Saci. Não antes sem ouvir um pedido de Helber: - Vai e traz água pra gente!



Em casa tomo banho e depois massageio o pé com gelo e uma coisa gosmenta chamada arnica. Falo pra minha mãe que, por precaução, seria melhor bater um raio-x.

Não tenho plano de saúde e após uma discussão a três com minha mãe e o taxista decidimos ir prum hospital novo em Mangabeira, cujo apelido tem um quê de humor negro: Trauminha.

Chego lá no intervalo entre os plantões dos ortopedistas. Seria lógico que um médico só abandonasse seu posto quando outro chegasse, mas parece que o SUS não reza pela cartilha da lógica. Uma menina na mesma situação que eu reclamou e a recepcionista respondeu que "aqui só a gente tem horário pra cumprir, eles não."

Enquanto isso eu tentava me distrair, alternando entre a TV no celular e Hollywood, não o cigarro, mas o romance de Bukowski.

O médico não usava jaleco e nenhuma peça de roupa branca. Tinha cara de frequentador assíduo da swingueira da Ponte Preta, se eu soubesse que cara tem quem frequenta a Ponte Preta, é claro.

A consulta

O funcionário me chama e eu entro na sala, dou boa-noite e o Dr. Amaro responde, sem me encarar:

- Não precisa fechar a porta.

Percebi ali que a consulta não ia ser longa. Ele me encarou com uma interrogação sobre a cabeça e eu o encarei de volta, com uma interrogação, exclamação reticências.

Mesmo tendo entrado ali arrastando o pé, ele ainda perguntou:

- Tem o quê?

Incrédulo, levanto o pé inchado e lho mostro.

Então ele me indicou o raio-x. O atendimento certamente não durou mais que um minuto e meio. Foi como um duelo de faroeste de Sergio Leone, demorado, arrastado e quando você menos espera tudo se resolve num puxar de gatilho. Aliás, Bastardos Inglórios também tem momentos assim.

Mas tergiverso.

Depois vem a espera pra tirar a radiografia. Com ela em mãos, percebo, no local que tava inchado, uma mancha branca parecida com um raio, mas ainda tinha esperança que não fosse grave. Mais uma fila pra mostrá-la a Dr. Amaro.

Quando volto à sala, tem um rapaz lá, que devia ser estudante de medicina, a quem Dr. Amaro estava explicando tudo que fazia. Não sei se por vaidade profissional, mas agora parecia outro médico, mais atencioso, falante etc. Quando me viu comentou jocosamente com o futuro ortopedista: "esse aí levou um bicudo de um colega". Claramente, como meus "colegas", ele achava que era algo sem importância. Mas foi só pegar a chapa e ver que não era bem assim.

- Tenho uma notícia boa pra tu: trinta dias sem botar o pé no chão. Pode ir engessar.

Não lembro o nome do osso. Mas foi esse aqui, em destaque:



E me deu o atestado, a receita do antiinflamatório e a ordem pra retornar... após o carnaval.

A rigor seria isso.

6.2.10

Pra morrer de velho

16.1.10

As pessoas seriam ainda mais bitoladas se não tivesse sido inventado o bloqueio a MSN, Orkut e afins no trabalho. Algum sociólogo visionário poderia fazer um estudo sério dos efeitos desse bloqueio para a Intelligentsia nacional (quiçá mundial).

No antediluviano 2003, quando estagiário do Sebrae, a falta do que fazer me levou a apelar pra leitura de jornais e foi assim que descobri os textos de Braulio Tavares no Jornal da Paraíba. Braulio publica essas colunas em seu blog, o qual ainda vai ser tombado como patrimônio cultural da humanidade.

Agora mais uma vez me vejo impedido de usar MSN, Orkut e afins e a saída é uma ronda pelos portais, como o R7, criado pela Record/Universal pra ser concorrente-gêmeo do G1. Ali descobri André Forastieri, que, soube depois, já foi da Set, editou a Bizz e atualmente aposta numa revista (de cinema, oh!) chamada Movie.

O primeiro post do cara que li comentava (e elogiava) Retalhos. Forastieri me convenceu não só a seguir lendo-o como a comprar a Graphic Novel - e não me arrependi, apesar de não ser (oficialmente) adolescente.

Em dezembro Papai Noel me trouxe, junto com a Piauí, um texto muito engraçado de André Czernobai, mais conhecido como Cardoso, uma minicelebridade da rede. Adivinha? Aproveitei as horas de ócio aqui no trampo pra fuçar os textos desse jornalista gaúcho até no nome (seu sobrenome se pronuncia "tchêrnobái").

E nessa eu cheguei até Gonzojornalismo: o filho bastardo do New Journalism , segundo seu autor a primeira monografia do país sobre o estilo criado por Hunter Thompson*. O texto é surpreendentemente leve, o que me lembrou algo que minha amiga Elisa falou sobre os trabalhos acadêmicos da Antropologia (a área dela), que, ao contrário da fama, seriam leituras agradáveis.

E é bom ler o trabalho do Capsdoso, principalmente pra quem se interesse por jornalismo e literatura.

Duvidam? Então talvez este trecho abra o apetite:

"A justificativa mais plausível para o uso de drogas no Gonzo Journalism nos remete ao legado deixado por Hunter Thompson, que abusava abertamente de álcool e drogas em grande quantidade e variedade. Logo nas primeiras páginas de Fear and Loathing in Las Vegas, ele descreve todo o material de trabalho que levava no porta-malas do carro:

Nós tínhamos duas bolsas de fumo, setenta e cinco botões de mescalina, cinco cartelas de ácido extremamente potente, um saleiro cheio até a metade de cocaína e toda uma galáxia de multi-coloridos estimulantes, tranquilizantes, gritantes, hilariantes... e também um quarto de tequila, um quarto de rum, uma caixa de Budweiser, cerca de um litro de éter e duas dúzias de nitrito de amila (1971, p.4)"

• Thompson escreveu Fear and Loathing in Las Vegas, que virou filme com Johnny Depp. O Gonzojornalismo é uma faceta do jornalismo literário em que o repórter/escritor se coloca como protagonista e não só como observador/registrador dos eventos. É uma radicalização do Novo Jornalismo. "Maiores informações" na Wikipédia ou comigo.

28.12.09



Gato dá trabalho, mas é engraçado.

Umas fotos aqui.

15.12.09

Ordinário

Vimos que "persona" é "máscara" e que a partícula "gem" dá idéia de movimento, ação, ato, processo.

Epaminondas não costuma perder nenhum capítulo da novela das oito. Não porque seja fã de teledramaturgia, mas pra ter assunto. Toda mulher que chega na repartição ele comenta "Fulana perdeu o bebê, não foi?"

Já futebol, não acompanha, pois basta perguntas genéricas como "quem é o líder?" para render algumas frases. Depois do primeiro fã do ludopédio interceptado no corredor, ele já sabe que time vai bem e qual está penando. Mesmo assim, ao encontrar o segundo, vem a inquisição: "E aí, quem tá liderando agora?"

É o máximo de interação que Epaminondas consegue. Tem a rara capacidade de não criar, ou sequer reter algum conhecimento que possa passar adiante. Epaminondas é, portanto, invisível.

E Epaminondas também não recebe mensalão. Não largou a mulher pela amante de 19 anos, não abusou da filha do vizinho, não é gremista e muito menos achou o máximo o Calypso gravar com Paralamas.

Não deixa pra cuspir em casa só porque acha falta de educação escarrar na rua. Epaminondas nem se chama Epaminondas. Epaminondas não é um personagem.

No próximo capítulo falarei sobre a inutilidade das vogais.

21.11.09

Tirado da coluna de Xico Sá no Yahoo:

"Se o seu marido fuma, não arrume briga pelo simples fato de cair cinzas no tapete. Tenha cinzeiros espalhados por toda casa." (Jornal das Moças, 1957).

"Não se deve irritar o homem com ciúmes e dúvidas". (Jornal das Moças,1957)

"O noivado longo é um perigo, mas nunca sugira o matrimônio. ELE é quem decide - sempre!" (Revista Querida, 1953)

"Sempre que o homem sair com os amigos e voltar tarde da noite espere-o linda, cheirosa e dócil." (Jornal das Moças, 1958)

17.11.09

A Realidade me disse "oi"

Quinta passada foi a primeira vez em meses que eu fui à UFPB pela manhã. Foi quando experimentei duas sensações estranhas.

Estou no corredor do CCHLA, próximo à Praça da Alegria, quando sinto alguém bater nas minhas costas.

- Oi.

Era a minha sobrinha Rafaela, fera de Administração. Assim, mais cedo ou mais tarde isso aconteceria, né. Mas é totalmente diferente eu saberque ela passou no vestibular, começou a frequentar as aulas, de vê-la na universidade, com pasta e tudo. Aquela coisa de mundo das idéias e mundo das coisas, sabe? Só então caiu a primeira ficha: já sou tio de uma universitária.

A segunda foi uma decorrência natural da outra: era a Realidade, ali, cutucando minhas costas e avisando: você está ficando velho*.

*E ranzinza demais pra conseguir ver alguma graça em modinhas como Lady Gaga. Mas isso já é outra história.