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10.12.12

Saiu uma nova fornada de microcontos dos meus alunos:



“Sempre correu demais, o que adiantou seu funeral.”

“Viveu, sorriu, se atirou do 5º andar. Era livre.”

“Quando o dia ainda não é dia, o galo fica a esperar.”

“Acordei tarde. O Sol estava se pondo. Tenho uma vida inteira pela frente.”

“A sogra era tão teimosa que morreu depois da esperança.”

“Todos a veem sorrindo, mas não sabem o que ela sente.”

“Aprendi a ter paciência por chegar rápido demais onde jamais quis ir.”



E este, que tá mais prum poema concreto:






Mais informações sobre essa atividade didática aqui.
E este



1.11.12

Carniceiro


Nasci em São Mamede. E como todos que nascem em São Mamede eu

Trabalhava em minhas Memórias quando o telefone tocou. Um trabalho, enfim. Um siamês chamado Carniceiro sumira. Como sempre fazia, antes de iniciar toda investigação complexa fui consultar Pai Gouveia, o pai-de-santo.

Um parêntese. Pai Gouveia não quer mais me atender, só porque lhe atrasei alguns pagamentos. Preciso falar a verdade: nunca paguei a Pai Gouveia. Não sei mais onde ele atende, Pai Gouveia é discreto, não precisa de publicidade. Pai Gouveia é outra história. Mas sei quem deve saber onde posso encontrá-lo: Juliana. Pai Gouveia vai me dar o serviço. Sem Pai Gouveia não tem Carniceiro e sem o gato não tem comida no prato.

Juliana é uma dona que andei pegando e resolveu pôr fim ao nosso relacionamento de sete anos e dois meses só porque me sustentava e achava que tinha direito a passar mais tempo comigo. Mais do que as três horas por semana. Mas sou um profissional. Pelo trabalho eu passo por cima do meu orgulho.

Juliana tem o péssimo hábito de não atender ligação a cobrar. Moro tão longe que preciso pegar dois ônibus para comprar um cartão de orelhão. Considero que, depois de três dias, já estava bom de fazer uma refeição e resolvo almoçar no restaurante popular, que cobra R$ 1. Boa, Lula.



Juliana sabe do Pai Gouveia, mas não quer me dar o endereço por telefone, tem que ser pessoalmente.

Tudo na vida tem consequência. O almoço no Centro me deixou sem dinheiro para pegar ônibus e fico esperando, espiando um cobrador com cara de banana para poder dar o ninja. Sou obrigado, agora que o golpe da Manassés não cola mais.

Triiiim. Abre a porta e vai logo me perguntando o senhor da última vez levou daqui uma toalha e um rolo de papel higiênico? Porra, Juliana, boa tarde pra você também. Depois de me obrigar a fazer amor por vinte e duas horas seguidas consigo sair de lá com o que queria. E um pacote de mariola oculto na pochete.

Já sei como chegar a Pai Gouveia. Mas preciso anranjar um disfarce muito bom para que ele me dê a informação que preciso. Ou pedir para alguém perguntar por mim. Mas quem ainda me faria um favor? A quem eu não devo ou nunca roubei? Juliana poderia quebrar mais este galho. Mas pode ser que ela não aceite outro pagamento na única moeda que disponho para oferecê-la. Sem falar no meu orgulho ferido pelo pé na bunda depois de oito anos e cinco meses. Bah. E se eu conseguisse um adiantamento? Será que alguém que batiza um siamês de Carniceiro confiaria neste detetive? Não está fácil pra ninguém. Fecha parêntese.

13.9.12

Ana de Hollanda mal pisou em Brasília e já foi alvo de polêmicas (a primeira, e mais famosa, foi a questão Creative Commons), mas permaneceu firme no cargo. Daí ela resolve reclamar que o orçamento da cultura é baixo e é demitida.

É como se um filho aprontasse todas e os pais passassem a mão na cabeça dele. Até que ele resolve pedir um aumento de mesada e é expulso de casa.

1.9.12

"A ciência e a tecnologia seriam usadas como se, a exemplo do sábado, tivessem sido feitas para o homem, e não (como no presente e ainda mais no Admirável Mundo Novo) como se o homem tivesse de ser adaptado e escravizado a elas.

Essa revolução verdadeiramente revolucionária deverá ser realizada não no mundo exterior, mas sim na alma e na carne dos seres humanos.

Um Estado totalitário verdadeiramente eficiente seria aquele em que os chefes políticos de um Poder Executivo todo-poderoso e seu exército de administradores controlassem uma população de escravos que não tivessem de ser coagidos porque amariam sua servidão. Fazer com que eles a amem é a tarefa confiada, nos Estados totalitários de hoje, aos ministérios de propaganda, diretores de jornais e professores."

27.8.12

entrepromessas

Quedo-me c'uma dúvida
Quiçá seja de mais gente
Não sei se vou ser feliz
Ou se vou seguir em frente

5.7.12

Questão Christie

“Os apedidos dos jornais fervilham de poemas indignados e de advertências como esta, assinada por O Capitão Reformado: 'Maldição de Deus a todo o brasileiro que comprar gêneros ingleses. Maldição de Deus a todo o brasileiro que vender víveres à esquadra inglesa'." 


“Gonçalves Dias, residindo então na Alemanha, fica indignado com a arrogância britânica e sugere 'que se rasgue na rua a casaca do brasileiro que trouxer um objeto de fabricação inglesa'. Para o poeta, porém, não basta essa satisfação ao amor próprio. Era preciso que o país rompesse as relações diplomáticas com seu agressor, para sempre: 'Fique em boa hora essa semente de ódio para o futuro: nem sempre seremos o que somos, nem eles o que são, e da Inglaterra tudo é preferível à sua amizade.'


Fonte: A vida literária no Brasil durante o Romantismo, Ubiratan Machado 

14.6.12

Fui pesquisar no Google "Como agir em caso de ataque zumbi" e enquanto digitava apareceu como sugestão "Como agir na primeira vez".

Por aí vocês tiram o que anda na cabeça dessa galerinha.

Post Scriptum: Saber o motivo de eu pesquisar sobre ameaças zumbis não vem ao caso.

25.5.12



“Naquele dia tentamos mudar o mundo, mas ele não quis acordo.”



“Mil voltas dadas na cama e o sono sem aparecer.”



“Ele era feio, ela era feia, mas juntos formavam um belo casal.”



“Se ele não tivesse acreditado tanto, não teria quebrado a cara.”



“Brincando com a arma do pai, o irmãozinho, sem saber, ao disparar contra o outro, matou com uma única bala todos os sonhos de uma família feliz.”



“Tudo seria diferente se ele não estivesse lá.”



“Aquele policial racista acabou morto por uma arma branca.”



“Procura-se uma pessoa sem nome, sem documento e que ainda não nasceu. Quem vir, avise.”



“Olhei. Admirei. Pensei. Vi um céu tão lindo e Azul, que esconde tanta tristeza. E que a ameaça a luz.”



“Deixava suas contas atrasarem mesmo com o relógio adiantado em cinco minutos.”



“Seus risos eram escondidos. Dores insanas.”



“Eu via a cena, mas não sabia se estava participando.”



A qualidade dos microcontos acima - em uns mais, em outros menos - é evidente. Observe também a variedade. Tem politicamente correto, tragédia, exercícios de síntese, lição de moral, lirismo e até fantástico.

O que poderá ser surpresa é que essas produções são de alunos meus de EJA (Educação de Jovens e Adultos), de uma escola estadual da periferia. Perfil: entre 18 anos e a terceira idade, tiveram de interromper os estudos e agora correm atrás do prejuízo ou, mesmo, só entraram numa sala de aula já adultos.

São estudantes que têm algumas dificuldades, óbvio, e por isso alguns apelidam o EJA de “Eles Jamais Aprenderão”. Mas o que esses microcontos me ensinaram é que, com um empurrãozinho de nada, a literatura pode brotar em qualquer lugar.

9.3.12

Um clássico de LFV

Pôquer interminável
(extraído de "O Analista de Bagé")
Cinco jogadores em volta de uma mesa. Muita fumaça. Toca a campainha da porta. Um dos jogadores começa a se levantar.
Jogador 1 - Onde é que você vai ? Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
Jogador 2 - Bateram na porta. Eu vou abrir.
Jogador 1 - A sua mulher não pode abrir ?
Jogador 2 - A minha mulher saiu de casa. Levou os filhos e foi pra casa da mãe dela.
Jogador 1 - Sua mulher abandonou você só por causa de um joguinho de pôquer ?
Jogador 2 - É que nós estamos jogando há duas semanas.
Jogador 1 - E daí ?
Jogador 2 - Ela disse: "Ou os seus amigos saem, ou eu saio".
Jogador 1 - Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
(A campainha toca outra vez. O dono da casa vai abrir, sob o olhar de suspeita dos outros. É um garoto. O garoto se dirige ao Jogador 1.)
Garoto - A mãe mandou perguntar se o senhor vai voltar pra casa.
Jogador 1 - Quem é a sua mãe ?
Garoto - Ué. A minha mãe é a sua mulher.
Jogador 1 - Ah. Aquela. Diz que agora eu não posso sair.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
Garoto - Eu trouxe uma merenda para o senhor.
Jogador 3 - Epa. O golpe do sanduíche. Mostra !
Jogador 5 - Vê se não tem uma seqüência dentro.
Jogador 1 - Não tem nada. Só mortadela.
Garoto - A mamãe também mandou pedir dinheiro.
(Todos os jogadores cobrem suas fichas.)
Todos - Ninguém dá. Ninguém dá.
Jogador 1 - Diz pra sua mãe que eu estou com um four de ases na mão. Como ninguém vai ser louco de querer ver, a mesa é minha e nós estamos ricos.
Jogador 4 - Se você tem um four de ases então tem sete ases no baralho, por que eu tenho trinca.
Jogador 1 - Diz pra sua mãe que o cachorrão falhou.
(Toca o telefone. O dono da casa se levanta para atender.)
Jogador 3 - Mas o quê ? Não se joga mais ? Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
(Apesar dos protestos, o dono da casa vai atender o telefone. Volta.)
Jogador 2 - Era a mulher do Ramiro dizendo que o nenê já vai nascer.
Jogador 4 - Meu filho vai nascer. Tenho que ir lá.
Jogador 1 - Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
Jogador 4 - Mas é o meu filho.
Jogador 3 - Você vai pro batizado. Quem é que joga ?
Pôquer Interminável (II)
Cinco jogadores em volta de uma mesa de pôquer. A fumaça é de três semanas. Batem na porta.
Jogador 1 - Vai abrir a porta, ó mulher!
Jogador 2 - Espera aí. Você está gritando com a minha mulher. Quer sair no braço?
Todos - Ninguém sai. Ninguém sai.
Jogador 2 - Com a minha mulher, grito eu. Vai abrir a porta, ó mulher
(Quem chega é uma senhora que se dirige a um dos jogadores.)
Senhora - Vitinho...
Jogador 3 - Mamãe...
Senhora - Há três semanas que você não sai dessa mesa, Vitinho!
Jogador 1 - Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
Senhora - Eu trouxe uma camisa pra você trocar...
Jogador 4 - Epa. Examina a camisa. O golpe da mãe é conhecido. Já vi mãe trazer camisa com seqüência fechada.
(Vitinho veste a camisa depois de mostrar que não tem nada escondido. O jogador 5 se levanta.)
Jogador 1 - Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
Jogador 5 - Mas eu vou ao banheiro.
Jogador 1 - Outra vez?
Jogador 5 - A última vez que eu fui faz dois dias!
Jogador 1 - Pois então. Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
Senhora - Vitinho, eu também trouxe um bolo.
Jogador 1 - Epa.
Os outros - Epa. Epa.
Jogador 2 - Jjá vi muito bolo de mãe com recheio de três valetes.
(Abrem o bolo para examinar.)
Senhora - Quando é que você vai sair desse jogo, Vitor?
Jogador 1 - Ninguém sai. Só a mãe.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
Jogador 2 - Vamos jogar. De quanto é o bolo?
Jogador 4 - não dá pra ver. tem pedaço de bolo em cima.
Jogador 1 - Agora essa. Tem bolo no bolo. Vocês estão me saindo...
Os outros - ninguém sai. ninguém sai.
Pôquer Interminável (III)
Cinco homens em volta de uma mesa de pôquer. Não se enxerga quase nada através da fumaça de um mês.
Jogador 1 - Espera um pouquinho. Cadê meu sanduíche?
Jogador 2 - Você não tinha jogado o sanduíche?
Jogador 1 - E sanduíche é ficha?
Jogador 2 - Estava no meio da mesa e eu peguei.
Jogador 3 - Esperem. Quem ganhou a última mesa fui eu. O sanduíche é meu.
Jogador 4 - Desse jeito nós vamos ficar aqui a vida inteira.
Jogador 3 - A vida inteira eu não posso.
Jogador 2 - Só porque você está ganhando?
Jogador 3 - Em 82 vai ter a Copa do Mundo na televisão e eu vou ver.
Jogador 1 - Ninguém vai.
Os outros - Ninguém vai. Ninguém vai.
(Toca o telefone. O Jogador 3 vai atender. Volta.)
Jogador 2 - Quem era?
Jogador 3 - Minha mulher. Nossa casa está prendendo fogo.
Jogador 1 - Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
(Entra uma mulher na sala. Dirige-se a um dos jogadores.)
Mulher - Preciso de dinheiro.
Todos (tapando as fichas) - Ninguém dá. Ninguém dá.
Jogador 1 - Quem é que deixou essa mulher entrar?
Mulher - Como, quem é que deixou entrar? A casa é minha. Se alguém tem que sair, são vocês.
Jogador 1 - Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
Jogador 3 - O que é isso?
Jogador 2 - É a porta. Eu vou abrir.
Jogador 1 - Epa.
Os outros - Epa. Epa.
Jogador 1 - Eu conheço o golpe da porta. Vai abrir com um par de nove e volta com um four de damas. Deixa as cartas.
(O Jogador 2 vai abrir a porta. Volta cercado por três homens.)
Jogador 2 - É a polícia.
Jogador 1 - Bota o seis no baralho que vão entrar mais três.
Jogador 3 - Não é melhor sair alguém?
Jogador 1 - Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.

1.3.12



Apesar das suspensões, contusão e epidemia de diarreia, o Paraíba de Cajazeiras, estreante na primeira divisão, derrotou o Treze, atual campeão estadual. O outro campinense, o Campinense, atual líder, foi vencido em casa pelo Sousa. Fechando o trio de sertanejos, o Nacional de Patos derrotou o último invicto do torneio, o Botafogo, em pleno Almeidão. Onde na arquibancada um torcedor contando cerca de 7 anos gritava "Expulsa! Expulsa!" e uma coleguinha da mesma idade, ao lado, berrava "Vá tomar no cu! NO CU!"

Isso é o campeonato paraibano.


21.2.12

Linguagens, códigos e suas tecnologias

Sempre foi esquisita. Quando desconfiava de mim pedia para ler o meu pé esquerdo - nunca o direito, que seria sonso. Assim a quiromante de membros inferiores descobria minhas puladas de cerca. Maldito pé esquerdo.

Ao que se seguia longas brigas sermões DR eu vou te deixar eu vou te deixar eu sempre fui fiel você não me dá valor

A ironia é que quem a deixou fui eu. Porém, um dia, uns três anos depois, sonhei com ela e senti saudades. Liguei. O número já não era dela. Escrevi. Nada. Insisti, disse que ela podia me mandar tomar no cu, catarse ruim era melhor que catarse nenhuma. E aí veio a resposta.

Nenhuma palavra.

Mas imagens, sim.

Isabel mantinha um diário em forma de história em quadrinhos. Sem texto, só datas. Pornografia em aquarela. Descobri que me traía semanalmente, religiosamente. Como a filha da puta pôde me esconder tanto tempo que desenhava tão bem?

15.2.12

Assim como os matemáticos são, entre os acadêmicos, os tipos mais interessantes, os enxadristas constituem o grupo mais excêntrico entre os desportistas. A paulista Katherine tem 12 anos e é autora de um alfabeto. Nas horas vagas trucida adversários com seus bispos de âmbar. Famoso por seus truques, o russo Vassily Tamchuk achou por bem aprender turco. O andaluz Vallejo alterna 24 horas de sono com 96 de vigília. O norueguês Carlsen não come pizza com queijo.

Quem joga xadrez em altíssimo nível costuma ser competitivo ao extremo. Diz-se que estão sempre a andar sobre uma corda bamba sobre o precipício da loucura. O letão Aaron Nimzowitsch, ao antever uma derrota, subiu na mesa e gritou: "Como posso perder para um idiota como este?"

4.2.12

Uma reprise e duas inéditas


Marta e Leonardo se esforçaram, mas não conseguiram disfarçar a surpresa quando viram Luciano, que nunca fora amigo íntimo do casal, bater à porta querendo saber se podia deixar as coisas ali.

Pôde. Acendeu um cigarro e começou a caminhar, inicialmente sem rumo. Depois decidiu conferir se a oficina mecânica onde trabalhara ainda existia.

Viu uma farmácia, dessas anabolizadas, 24 horas, ocupando o seu lugar. Observando melhor, porém, viu que a oficina ainda estava lá, mas não era a mesma. A farmácia tinha tomado dois terços do prédio onde fora a Auto Mecânica São Geraldo.

Estava aberta. Não viu rostos, só ouviu ruídos de risadas e televisão. Não queria ser visto pelos antigos companheiros. Mas deixou-se perder por um instante em lembranças e essa demora foi-lhe fatal.

- Ei, aquele não é Luciano?

- É sim, é ele!

Fora descoberto. Não podia fugir. Nem queria falar. Chico, Valber e Nêgo sabiam que ele sempre foi calado e meio estranho. Mas agora parecia mais.

Aos quatro juntaram-se duas moças que não eram do tempo de Luciano. Formou-se uma roda de expressões constrangidas, uns com as mãos nos bolsos, outros coçando a barba, uns fitando o chão, outros se entreolhando.

Ninguém falava nada e Luciano teve tempo para observar o lugar com mais atenção. Aquilo parecia tudo, menos uma oficina: o chão limpo, as paredes cheirando a tinta fresca e, finalmente, nenhum carro de capô erguido.

- A gente tá reformando.

Essas quatro palavras de Valber fizeram aquele grupo redescobrir a faculdade de comunicar-se.

- A nossa ideia é fazer uma oficina junto com um salão de beleza. Pra atrair a freguesia feminina, né? E também os maridos que vierem com as esposas vão poder dar uma olhada no carro enquanto esperam a patroa. Agora e gente enrica! – Emendou Chico, procurando, sem sucesso, um eco de aprovação na face de Luciano.

- Uma oficina e um salão num espaço que não é nem metade de quando era só oficina... – divagou.

Nêgo tentou mudar de assunto:

- Você se formou em quê mesmo?

Luciano olhou para o amigo e viu, por sobre seus ombros, ao longe, a ponte.

Onze anos antes, num dia ensolarado como aquele, notou o reflexo do sol poente no rio pela janela do ônibus e pensou que em São Paulo jamais veria algo parecido com aquilo. Mesmo se a poluição deixasse, não haveria tempo, não haveria horizonte, não a veria.

- Eu vou cortar seu cabelo, vem.  – Propôs Glória.

Luciano obedeceu.

- Você gosta de sorvete? Aqui na farmácia vende. Ritinha, quando eu acabar aqui pega um sorvete lá pra gente tomar!

- Uma bola de flocos, uma de coco e cauda de caramelo.

O espanto foi geral e inevitável. Em qualquer outro contexto soaria como um simples pedido. Porém, era a primeira frase que os velhos colegas ouviam sair da boca de Luciano em mais de uma década. Ritinha e Glória já começavam a achar que o homem era surdo-mudo ou doido.

O recém-chegado, ao contrário, se mantinha inexpressivo, imóvel, fitando a si no espelho.

- Ela jogou o sorvete inteiro na minha camisa nova quando eu disse que ia embora. Uma bola de flocos, uma de coco e cauda de caramelo. De casquinha.

***

O que dá em mim
É agonia
Se não fosse assim
Não viria

***


Assim você me mata

Por que você é assim?
Áspera, rude, antipática, tratante.
Você evita que as pessoas se aproximem de você.
Gostem de você.
Mas elas gostam mesmo assim.
Bom pra você.
Ruim pra mim.

31.1.12

"O Brasil foi descoberto, por acaso, em 1500, e ficou sendo colônia de Portugal até 1822, mas não por acaso. Nesse ano, para continuar mandando, um príncipe português proclamou a independência do Brasil e o país, desde então, passou a fazer dívidas por conta própria, ficando cada vez mais dependente dos credores. Em 1899, foi proclamada a República, a qual foi passando por muitos estados de evolução, entre os quais o estado de sítio, o estado de emergência, o estado de guerra e o Estado Novo, que é, afinal, o estado a que chegamos."

Barão de Itararé, que amava Getúlio.

28.1.12

Impressões de Aracaju

- Aracaju é possivelmente mais bonita que João Pessoa. Boa parte da cidade fica à margem de rios e mangues, e outro grande (e emergente) pedaço fica à beira mar. Há água por toda parte - mas os canais fedem. Recifeelings. A orla (artificial) da cidade é grande em todos os sentidos e direções e planejada para o turismo. Há espaço de sobra para eventos, áreas pra estacionar, etc. Assim, a praia fica cheia à noite, mas não caótica.



- Aracaju é, sem dúvida, mais organizada que João Pessoa. Mesmo tendo população menor, aquela dá a impressão de ser maior que esta, por ser mais espaçada. Assim, as distâncias são maiores, mas há mais vias, mais vagas pra estacionar e, portanto, o trânsito é melhor.

- Aracaju é, certamente, mais rica que João Pessoa. Bairros inteiros têm sido construídos; pontes, inauguradas. O horizonte é dominado pelas plataformas de extração de petróleo. E a Petrobrás também possui uma unidade de gás ali.



- Não poderia deixar de falar de comida. Meus destaques vão pras botequices: o maravilhoso X-Coração (de galinha) do Franques, o escondidinho da Orla de Atalaia e, pra sobremesa, a queijadinha da Feira de Sergipe.

6.1.12

Leia a declaração, veja o vídeo e tire suas conclusões

Agra é disparado a melhor opção entre os que podem governar a cidade, mas isso não impede de ele fazer/falar uma cagada aqui e ali. A mais recente:

- Eu já havia decidido acabar com os camarotes. Aquele espaço tem o objetivo de proteger o palco em shows com mais de 100 mil pessoas e para receber convidados como Dalmo Dalari que tem 80 anos e o senador Eduardo Suplicy. 


Leia a matéria completa aqui.


O prefeito acha que que um show de Rita Lee em João Pessoa pode ser mais perigoso do que um de Racionais em São Paulo?




Provincianismo é uma merda.