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23.2.08

Nunca fomos colonizados, fizemos foi putaria

Esqueça tudo o que você já viu, leu ou ouviu sobre ratoeiras, orgias, bacanais, surubas ou festinhas em repúblicas.

"O ambiente em que começou a vida brasileira foi de quase intoxicação sexual. O europeu saltava em terra escorregando em índia nua; os próprios padres da Companhia [de Jesus] precisavam descer com cuidado, senão atolavam o pé na carne. Muitos clérigos deixaram-se contaminar pela devassidão. As mulheres eram as primeiras a se entregar aos brancos, as mais ardentes indo esfregar-se nas pernas desses que supunham deuses. Davam-se ao europeu por um pente ou um caco de espelho."

Gilberto Freyre, Casa-grande e senzala

"...aqui, onde as mulheres andam nuas e não sabem se negar a ninguém, mas até elas mesmas cometem e importunam os homens, jogando-se com eles nas redes porque têm por honra dormir com cristãos."

José de Anchieta, Cartas

13.2.08

Notícia ruim pra quem gosta de más notícias

Passou quase despercebido, mas no último dia 1 o juiz da 28ª Vara Criminal do Rio, Jorge Le Cocq, condenou os pitboys que agrediram a doméstica Sirlei Dias na Barra da Tijuca, em junho passado.

"A maior pena foi para Rodrigo dos Santos Bassalo da Silva, que ficará preso sete anos e quatro meses em regime fechado. Ele e Leonardo de Andrade, que foi condenado a seis anos e oito meses, já respondem a ações penais por roubo com arma de fogo em outras varas criminais. Leonardo também cumprirá a pena em regime fechado. Júlio Ferreira também ficará preso por seis anos e oito meses, e Rubens Arruda Bruno e Felipe Nery Neto vão cumprir seis anos, em regime semi-aberto."
CBN e O Globo Online

Cabe recurso, mas com exceção de Felipe, os agressores tiveram habeas corpus negados e vão aguardar novo julgamento vendo o sol nascer quadrado. Aliás, eles já estavam presos antes dessa decisão.

A cobertura do julgamento foi discreta. Um pouco por causa do Carnaval, mas principalmente, acredito, porque notícias boas vindas de qualquer um dos três poderes não dá ibope. O esporte preferido dos brasileiros é falar mal do Brasil.
Se, como todos falam, a regra no nosso país é a corrupção e a impunidade, por que então não abordar o excepcional, pra variar, que é ver a justiça cumprida?
Há um certo prazer, ou alívio, ou sei lá o quê em saber que um crime não foi punido. Todos fingem revolta, mas no fundo é como uma absolvição prévia e geral pra qualquer delito.
É sentir que, se eu sonego imposto, traio minha esposa ou enveneno o cachorro do vizinho, há quem faça muito pior do que eu e nada acontece. E assim tudo é permitido abaixo do Equador.

10.2.08

Com qual celebridade você se parece?

Segundo esse site, Tom Cruise, Hugh Jackman (Wolverine) e até Kate Winslet são meus sósias.

Sentiram a credibilidade?

7.2.08

Post de cinzas

Histórias de verão 5: Bandeira Branca

Ele: tirolês. Ela: odalisca. Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas tinham só quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro. Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das mães e ficaram sentados no chão, fazendo um montinho comum de confete, serpentina e poeira, até serem arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro baile de carnaval.
Encontraram-se de novo no baile infantil do clube do ano seguinte. Ele com o mesmo tirolês, agora apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o montinho, mas desta vez as mães reagiram e os dois foram obrigados e dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas.
Só no terceiro carnaval se falaram.
- Como é teu nome?
- Janice. E o teu?
- Píndaro.
- O que?!
- Píndaro.
- Que nome!
Ele de legionário romano, ela de índia americana.
Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no carnaval e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinham visitar uma tia no carnaval, a tia é que era sócia.
- Ah.
Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma, tentando encher a boca das meninas de confete, e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do "Bandeira Branca", ele veio, e a puxou pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E quando se despediram ela o beijou na face, disse "Até o carnaval que vem" e saiu correndo.
No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as fantasias dos dois combinaram. Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu:
- Me dá alguma coisa.
- O que?
- Qualquer coisa.
- O leque!
O leque da bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.
No ano seguinte ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo toda à sua aprocura, um havaiano desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro pensando nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo, antegozando o momento de encontrá-la outra vez no baile. E ela não apareceu. Marcelão, o mau elemento da sua turma, tinha levado gim para misturar com o guaraná. Ele bebeu demais. Teve que ser carregado para casa. Acordou na sua cama sem lençol, que estava sendo lavado. O que acontecera?
- Você vomitou a alma - disse a mãe.
Era exatamente como se sentia. Como alguém que vomitara a alma e nunca a teria de volta. Nunca. Nem o leque tinha mais do cheiro dela.
Mas no ano seguinte ele foi ao baile dos adultos no clube - e lá estava ela! Quinze anos. Uma moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.
- Sei lá. Bávara tropical - disse ela, rindo.
Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais solto. Contou que faltara no ano anterior porque a avó morrera, logo no carnaval.
- E aquela bailarina espanhola?
- Nem me fala. E o toureiro?
- Aposentado.
A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermudas, finalmente um brasileiro. Ela estava com um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao grupo alguém disse "Píndaro?!" e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu uma desculpa e afastou-se. Foi procurar o Marcelão. O Marcelão anunciara que levaria várias garrafas presas nas pernas, escondidas sob as calças da fantasia de sultão. O Marcelão tinha o que ele precisava para encher o buraco deixado pela alma. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida, começando pelo carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro.
Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro. Passou todo o baile encostado numa coluna adornada, bebendo o guaraná clandestino do Marcelão, vendo ela passar abraçada com uma sucessão de primos e amigos de primos, principalmente um halterofilista, certamente burro, talvez até criminoso, que reduzira sua fantasia a um par de calças curtas de couro. Pensou em dizer alguma coisa, mas só o que lhe ocorreu dizer foi "Pelo menos o meu tirolês era autêntico" e desistiu. Mas quando a banda começou a tocar "Bandeira Branca" e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo "Não vale, você cresceu mais do que eu" e encostando a cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.
Encontraram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste carnaval. Por acaso, num aeroporto. Ela desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos no Rio. Ela disse: "Quase não reconheci você sem fantasia." Ele custou a reconhecê-la. Ela estava gorda, nunca a reconheceria, muitos menos de bailarina espanhola. A última coisa que ele lhe dissera fora "Preciso te dizer uma coisa", e ela dissera "No carnaval que vem, no carnaval que vem" e no carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais aparecera. Explicou que o pai tinha sido transferido para outro Estado, sabe como é, Banco do Brasil, e como ela não tinha o endereço dele, como não sabia nem o sobrenome dele, e, mesmo, não teria onde tomar nota na fantasia de falsa bávara...
- O que você ia me dizer, no outro carnaval? - perguntou ela.
- Esqueci - mentiu ele.
Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Os filhos dele moram no Rio, com a mãe. Ela, o marido e a filha moram em Curitiba, o marido também é do Banco do Brasil... E a todas essas ele pensando: digo ou não digo que aquele foi o momento mais feliz da minha vida, "Bandeira Branca", a cabeça dela no meu ombro, e que todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu...


O Estado de São Paulo - 14 de fevereiro de 1999


L.F. Verissimo

3.2.08

Ela, a imperatriz na passarela, é samba é arte, é coisa bela.

Eu sou, sou caruana eu sou, Patuanu nasceu do girador.

Sonhava Nassau, com uma Holanda tropical, Nassau, e nesse sonho ele então pediu: quero te ver, Brasil!

Neste palco iluminado só dá Lalá! És presente imortal, só dá Lalá!

Enfeitei meu coração de confete e serpentina, minha mente se fez menina... (?)

Brudumpraticundumtucurundum meu samba, minha gente, é isso aí, é isso aí.

Samba, a mulata é a tal... Salve a loirinha com seus olhos de cristal!

Bahia, terra sagrada, Iemanjá, Iansã...
Mangueira supercampeã!

Ah, vira, virou, vira, virou
A Mocidade chegou
Virando as viradas dessa vida

É no chuê, chuê
É no chuá, chuá
Toda trizteza já deixei pra lá!

Mostrar ao mundo o perfil do brasileiro
Malandro, bonito, sagaz e maneiro
Que canta e dança, pinta e borda e é feliz

Explode coração na maior felicidade!
É lindo o meu Salgueiro contagiando e sacudindo essa cidade!

Sou índio, sou forte, sou filho da sorte, eu sou natural
Eu sou Naturaaal
Sou guerreiro, sou a luz da liberdade
Car-na-vaaaal!

Eles trouxeram o balanço do deserto mas não tem o gingado certo pra cruzar o nosso chão.

O Sertão não é só lamento
Meu momento é aqui
Faço a festa e lavo a alma hoje na Sapucaí.

A mão que faz a bomba, faz o samba
E Deus faz gente bamba
A bomba que explode nesse carnaval
É a Mocidade levantando o seu astral!

Vou cair na gandaia com a minha bateria
No balanço da mulata, explosão de alegria!

Lá vem a Viradouro aí, meu amor!
Coisa igual eu nunca vi, que esplendor!
(E vem das Treeeevas...)
Vem das Trevas, tudo pode acontecer
A noite vira dia, luz de um novo amanhecer.

É Dom Quixote, ô, É Zé Pereira, é Charlie Chaplin no embalo da Mangueira!